A Espanha deu um passo concreto na sua estratégia de energia renovável e economia circular com a inauguração da Metabarri, uma planta de biometano no País Basco. O projeto é fruto de uma parceria público-privada entre a administração local de Vizcaya, o Ente Vasco de la Energía (EVE) e a empresa de gestão de resíduos PreZero, com um investimento total de €25 milhões, dos quais mais de €17 milhões foram aportados por fundos europeus Next Generation.
O movimento é significativo por duas razões. Primeiro, a Metabarri é a primeira instalação na Espanha que consolida em um único espaço todo o ciclo de produção: do recebimento do resíduo orgânico ao tratamento e injeção do biometano purificado na rede de gás natural. Segundo, a iniciativa representa um esforço para diminuir a grande defasagem do país em relação a seus vizinhos europeus na produção de gás renovável, um pilar para a autonomia energética do bloco.
Um passo estratégico, mas tardio
Com capacidade para processar 50 mil toneladas de matéria orgânica por ano, a planta tem um duplo rendimento: produz biometano e aproveita o material restante para gerar composto para agricultura. Segundo a reportagem da Forbes España, o volume de gás gerado poderia equivaler a 1,2% do consumo total de gás natural da região. Autoridades locais classificaram o projeto como “estratégico para Vizcaya”, destacando sua capacidade de antecipar desafios futuros na gestão de resíduos e na matriz energética.
O contexto, no entanto, expõe o tamanho do desafio. Enquanto a Europa opera mais de 1.600 plantas de biometano, a Espanha conta com apenas 25. O diretor da PreZero, Borja Martín, apontou um dado alarmante: cerca de seis milhões de toneladas de matéria orgânica ainda são enterradas em aterros anualmente no país, desperdiçando seu potencial energético. A Metabarri, portanto, é um modelo celebrado, mas também um lembrete do longo caminho a percorrer.
O modelo 'tudo em um'
O grande diferencial da Metabarri é sua integração vertical. O processo começa com a coleta de resíduos, que são decompostos em biodigestores para gerar biogás. Este gás é então purificado até se tornar biometano, com qualidade suficiente para ser injetado diretamente na rede de transporte de gás. Essa eficiência operacional, concentrada em um só local, reduz custos logísticos e otimiza a cadeia de valor, servindo como um potencial blueprint para futuras instalações.
A viabilidade do projeto está intrinsecamente ligada ao financiamento público, especialmente dos fundos de recuperação da União Europeia, que cobriram quase 70% do investimento. Isso sinaliza um caminho para outros projetos de capital intensivo na transição energética. Como o biometano é quimicamente idêntico ao gás natural fóssil, ele pode utilizar toda a infraestrutura existente, eliminando a necessidade de construir novas e dispendiosas redes de distribuição — um fator decisivo para sua escalabilidade.
A planta basca é um avanço notável para a economia circular espanhola, transformando um passivo ambiental em um ativo energético. Contudo, a escala ainda é a principal barreira. A questão que permanece é se este modelo integrado, impulsionado por capital europeu, conseguirá ser replicado com a velocidade necessária para que a Espanha atinja suas metas de descarbonização e soberania energética.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





