A corrida pela inteligência artificial está produzindo um resultado inesperado nos data centers corporativos: uma revalorização estratégica de sistemas legados, como os mainframes. Segundo uma reportagem do The Register, que cita um estudo da consultoria Ensono, 78% dos líderes de TI agora consideram essa infraestrutura mais importante do que há dois anos, creditando essa mudança diretamente à necessidade de alimentar e escalar projetos de IA.
O paradoxo é claro. A busca pela tecnologia mais avançada do momento está forçando as empresas a repensar o valor de arquiteturas com décadas de existência. A tese que emerge não é de uma modernização que substitui, mas que integra. O valor não está na idade do hardware, mas na densidade e na qualidade dos dados e da lógica de negócio que ele processa há anos — ativos caros e demorados demais para serem recriados do zero.
O alicerce da inovação
A principal barreira para o sucesso de projetos de IA, segundo o estudo, não é a falta de algoritmos, mas a dificuldade de integrar a tecnologia aos fluxos de trabalho existentes e as limitações da infraestrutura. É aqui que o mainframe ressurge como peça-chave. Quase metade das 500 empresas ouvidas nos EUA e Reino Unido veem seus sistemas legados como uma "fundação crítica" para a IA, servindo como a fonte primária de dados curados e processos de negócio validados.
Essa visão pragmática significa que, em vez de uma migração massiva para a nuvem, muitas companhias estão optando por otimizar e estender seus sistemas atuais. A estratégia é cirúrgica: modernizar aplicações pontuais e conectar a robustez do mainframe à agilidade de novas plataformas. A leitura é que a modernização deixou de ser sinônimo de substituição para se tornar um exercício de integração inteligente entre o velho e o novo.
Suar o ativo: a nova regra
A tendência se reflete em uma mudança de comportamento mais ampla na gestão de TI. Executivos de grandes fornecedores, como a HPE, observam que os clientes estão estendendo os ciclos de atualização de seus ativos de tecnologia, passando de cinco para sete anos. A expressão usada é "suar o ativo" (sweat the asset), uma decisão que força um planejamento mais rigoroso sobre o que é essencial e o que pode esperar.
Para os CIOs, o cenário impõe uma nova disciplina. A pergunta-chave deixa de ser "quando vamos migrar tudo?" para "o que deve ser substituído e o que deve ser aumentado?". A corrida pela IA não está apenas criando novos modelos de linguagem; está forjando um novo modelo de infraestrutura corporativa, onde a resiliência de sistemas de décadas passadas se torna o alicerce para a agilidade das tecnologias do futuro.
A paisagem tecnológica que se desenha é, portanto, híbrida e multi-geracional. O futuro da computação corporativa não parece residir exclusivamente na nuvem ou em servidores de última geração, mas em um ecossistema complexo onde arquiteturas de 50 anos coexistem e colaboram com modelos de IA treinados ontem. O desafio não é mais escolher uma plataforma, mas orquestrar a complexidade.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Register





