Uma resolução apresentada pelo Togo e aprovada nas Nações Unidas propõe o abandono gradual de uma das imagens mais influentes dos últimos quatro séculos: o mapa-múndi baseado na projeção de Mercator, de 1569. Em seu lugar, a ONU recomenda a adoção do mapa Equal Earth, que representa as massas de terra em suas proporções corretas.
A decisão, embora não vinculante, é mais do que um ajuste técnico para cartógrafos. É um questionamento direto a uma visão de mundo que, por séculos, distorceu a realidade em favor do Norte Global. A projeção de Mercator, criada para a navegação, estica as regiões próximas aos polos e comprime as que estão perto da linha do Equador. O resultado é uma África que parece menor e uma Groenlândia que aparenta ser tão grande quanto o continente africano, embora seja 14 vezes menor.
A geometria da percepção
O mapa não é o território, mas molda a percepção sobre ele. A distorção de Mercator não é neutra; ela tem consequências culturais e políticas. Ao superdimensionar a Europa e a América do Norte, a projeção reforçou visualmente a centralidade e o poder dessas regiões durante a era colonial e depois dela. Segundo reportagem do Olhar Digital, o ex-presidente americano Donald Trump teria descrito a Groenlândia como “massiva”, um interesse possivelmente influenciado pela sua representação exagerada nos mapas tradicionais.
Essa dissociação entre tamanho real e tamanho percebido ilustra como uma ferramenta supostamente objetiva pode carregar vieses profundos. A mudança para a projeção Equal Earth, portanto, é uma tentativa de realinhar a representação visual do mundo com a realidade geográfica, devolvendo à África e a outras regiões equatoriais sua verdadeira escala no palco global.
Uma questão de ciência
Apesar das implicações geopolíticas — os Estados Unidos foram o único país a vetar a resolução, enquanto seis se abstiveram —, os proponentes da mudança insistem que o debate é, em sua essência, científico. O jornalista Eromo Egbejule, do The Guardian, é citado afirmando que “esta é uma discussão científica. Não é uma imposição”. O objetivo primário é a precisão cartográfica.
Contudo, o gesto ressoa em um contexto mais amplo de revisão de narrativas históricas. A iniciativa se soma a outros movimentos que buscam corrigir desequilíbrios de representação. Como resume a organização Africa No Filter, uma das vozes na campanha pela mudança: “Se erramos algo tão básico quanto o tamanho da África durante tanto tempo, o que mais sobre a África simplesmente aceitamos sem questionar?”
A pergunta não busca uma resposta definitiva, mas abre um campo de reflexão. A troca de um mapa por outro não altera a geografia do planeta, mas tem o potencial de começar a alterar a geografia mental de quem o habita, uma referência de cada vez.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Olhar Digital





