Um consórcio espanhol, que une a academia e a indústria, está desenvolvendo uma solução para um dos maiores paradoxos energéticos do país: como explorar o vasto potencial eólico de seus 8.000 km de costa quando o mar é profundo demais para as tecnologias convencionais. A resposta está no projeto experimental SEA-LIFT, que propõe instalar turbinas de mais de 20 MW sobre plataformas flutuantes.

Liderado pelo Instituto de Hidráulica Ambiental da Universidade da Cantábria em parceria com a empresa Nabrawind, o projeto ataca o problema estrutural que travou o desenvolvimento da eólica offshore na Espanha. A aposta é que a engenharia pode contornar a geografia e destravar um recurso estratégico para a matriz energética europeia, com implicações que ecoam em mercados com desafios similares, como o Brasil.

Uma barreira geográfica, uma solução de engenharia

Ao contrário das águas rasas do Mar do Norte, onde a indústria eólica offshore europeia floresceu, a costa espanhola apresenta um talude continental abrupto. Em alguns pontos, a profundidade atinge 1.000 metros a apenas 10 quilômetros do litoral, tornando a instalação de turbinas com fundações fixas no leito marinho técnica e economicamente inviável. Este obstáculo explica por que a Espanha, uma potência em energia eólica terrestre, ainda engatinha no mar.

O projeto SEA-LIFT combina duas inovações para superar essa barreira. A primeira é o uso de plataformas flutuantes (FOWP, na sigla em inglês), que são ancoradas ao fundo do mar mas não dependem de uma base fixa, permitindo a instalação em águas profundas. A segunda é a tecnologia Skylift, da Nabrawind, um sistema de auto-içamento que dispensa o uso de guindastes gigantescos — uma das maiores fontes de custo e complexidade logística em projetos offshore. Segundo os responsáveis, a combinação pode reduzir os custos operacionais entre três e cinco vezes.

Embora ainda em fase experimental, o sucesso do SEA-LIFT seria um divisor de águas. Permitiria à Espanha complementar sua geração solar e eólica terrestre com uma fonte mais constante e potente, especialmente nos meses de inverno, quando o consumo de eletricidade aumenta. A iniciativa mostra um caminho pragmático: em vez de esperar por uma tecnologia disruptiva, a Espanha está integrando soluções de engenharia existentes para resolver um problema imediato e estratégico.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka