Questionado sobre o que pode ser a maior transferência de ativos da história, o mega-dealer Larry Gagosian mostrou-se tranquilo. Durante um evento no Parrish Art Museum, nos Hamptons, o fundador da galeria que leva seu nome foi indagado sobre o impacto da chamada “Grande Transferência de Riqueza” — a passagem de coleções de arte da geração boomer para seus herdeiros, um volume estimado em até US$ 1 trilhão.

A preocupação do mercado é que um influxo massivo de obras, despejadas por herdeiros com pouco interesse na coleção dos pais, possa derrubar os preços. Gagosian, contudo, vê outra possibilidade. Segundo reportagem da ARTnews, que cita a newsletter Wall Power, o galerista de 81 anos acredita que bons colecionadores veriam a queda nos preços como uma “oportunidade de compra”. “Não estou preocupado com isso”, concluiu.

O número e a realidade

A tese de Gagosian ganha força quando se analisa a origem da cifra de US$ 1 trilhão. O número, calculado pela Deloitte e pela ArtTactic, não representa um inventário de obras prontas para o leilão. Trata-se de uma estimativa que assume que cerca de 5% do patrimônio de famílias ultra-ricas consiste em arte e colecionáveis. A qualidade e a liquidez desses ativos são uma grande interrogação.

Mais importante, o mercado global de arte movimenta aproximadamente US$ 60 bilhões por ano. Se um volume próximo a US$ 1 trilhão chegasse ao mercado ao longo da próxima década, seria necessário um aumento dramático nos gastos ou uma queda vertiginosa nos preços. O primeiro cenário é improvável; o segundo, como aponta Gagosian, beneficia quem tem capital para aproveitar as barganhas.

O perfil do herdeiro

Outro ponto que atenua o pânico é o destino do dinheiro. Uma análise da Visa, citada na newsletter Gray Market, estima que a maior parte dos US$ 93 trilhões em ativos a serem herdados nos EUA nas próximas duas décadas irá para famílias que já estão entre os 10% mais ricos. Esse capital não se tornará imediatamente dinheiro para consumo discricionário.

A maior parte será direcionada para quitar dívidas, investimentos, filantropia, impostos e aposentadoria. A oportunidade mais imediata para o setor, portanto, não parece ser a formação de uma nova classe de colecionadores, mas sim a prestação de serviços — de casas de leilão, consultores, advogados e galeristas — para ajudar os herdeiros a gerenciar, avaliar e, eventualmente, vender os ativos que acabaram de receber.

No fim, o valor de um Picasso na parede de um herdeiro é apenas teórico. Ele só se torna real quando alguém está disposto a pagar por ele. A grande transferência de riqueza pode ser menos uma inundação e mais uma reorganização de portfólios, um serviço que o mercado de arte já está bem acostumado a fornecer.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews