Em análise publicada em 4 de agosto de 2026, o gestor Gavin Baker argumenta que o mercado de capitais está interpretando fundamentalmente errado a economia da inteligência artificial. Enquanto investidores reagem a narrativas superficiais e vendem ações de infraestrutura — levando a Nvidia, por exemplo, ao seu menor múltiplo Preço/Lucro futuro em dez anos —, os indicadores quantitativos subjacentes não apenas permanecem sólidos, como aceleram. Baker relata uma busca ativa por qualquer métrica negativa de desaceleração, como disponibilidade ou preços de aluguel de GPUs, e não encontra nenhuma. Pelo contrário, todos os sinais, do crescimento de tokens ao preço spot de DRAM, apontam para uma demanda crescente. A tese central é que o mercado, cego para a dinâmica de empresas privadas como OpenAI e Anthropic, e para a ascensão do open source, confunde volatilidade com fraqueza estrutural.
A Reprecificação da Computação
O pilar do argumento de Baker é a iminente reprecificação da capacidade computacional instalada. Grande parte da infraestrutura de nuvem atual opera sob contratos de longo prazo (LTAs) assinados a preços que hoje representam um desconto massivo em relação ao mercado spot. À medida que esses contratos expiram, os hyperscalers (Amazon, Microsoft, Meta) poderão reprecificar essa capacidade a valores muito mais altos. Esse movimento, segundo ele, destravará um fluxo de caixa operacional (FCO) que o mercado não está modelando. Baker aponta que o FCO dos hyperscalers já mostra aceleração, de 28% para 35% em base ajustada no último trimestre, antes mesmo do efeito da reprecificação. A consequência direta é a capacidade de financiar a expansão da infraestrutura de IA com geração de caixa interna, e não com dívida. Ele estima que o FCO dos hyperscalers pode saltar de US$ 1,3 trilhão para US$ 2 trilhões, eliminando a necessidade de cerca de US$ 700 bilhões em crédito. Isso neutraliza a principal preocupação do mercado: a sensibilidade do setor a juros altos e ao aperto nas condições de crédito.
O 'Dark Matter' do Open Source
Outro erro de interpretação do mercado, segundo Baker, é o pânico em torno da ascensão de modelos open source. A percepção geral é que eles canibalizam as margens dos modelos de fronteira (como os da OpenAI ou Anthropic), o que seria negativo para o ecossistema. Baker desmonta essa lógica com um princípio simples: "um token é um token". Para a infraestrutura, a produção de um token via modelo aberto exige a mesma quantidade de computação — flops, memória, energia — que um token de modelo proprietário. A ascensão do open source apenas transfere a margem de lucro da camada de modelo para a camada de infraestrutura. Ao oferecer alternativas mais baratas, o open source estimula a demanda geral por tokens, aumentando o consumo de computação. Empresas passam a usar "roteadores" que direcionam cada tarefa para o modelo mais eficiente, seja ele aberto ou proprietário. Essa otimização pode estabilizar o gasto de uma empresa com IA, mas, paradoxalmente, aumenta o consumo total de horas de GPU. Baker descreve o open source como a "matéria escura" do mercado: difícil de medir pelos investidores públicos, mas uma força gravitacional que acelera a demanda por infraestrutura.
O diagnóstico final é que o mercado está preso em ciclos narrativos curtos e superficiais, possivelmente acelerados pelo uso da própria IA para interpretar notícias financeiras — o que Baker chama de efeito "Claude como Walter Cronkite". A volatilidade recente não reflete uma crise fundamental, mas uma série de reações exageradas a eventos como a notícia de que a Meta alugaria capacidade ociosa ou os avanços da China em maquinário de semicondutores. A tese de Baker é que, enquanto o mercado se distrai, a dinâmica de jogo entre os players, onde ninguém pode se dar ao luxo de reduzir investimentos em computação, e a mecânica da reprecificação de contratos garantem que o valor continue a se acumular na camada de infraestrutura. O risco real não é o colapso da demanda, mas a regulação governamental, o único fator exógeno capaz de frear a construção da infraestrutura.
Fonte · Brazil Valley | Technology




