Dimitri Bertsekas, professor emérito do MIT e uma das mentes mais influentes por trás dos algoritmos que governam o mundo digital, faleceu aos 83 anos em sua casa em Massachusetts. A notícia foi confirmada pelo próprio MIT, instituição à qual esteve ligado por quatro décadas. Sua carreira atravessou e moldou campos que vão da otimização e controle computacional ao aprendizado por reforço e à inteligência artificial.
Embora sua pesquisa tenha gerado prêmios e reconhecimento, incluindo uma cadeira na Academia Nacional de Engenharia dos EUA, o impacto mais duradouro de Bertsekas talvez não resida em um único paper, mas em sua prolífica obra como autor. Com mais de 20 livros e monografias, ele se tornou o arquiteto da clareza em domínios notórios por sua complexidade, ensinando gerações de engenheiros e cientistas a pensar. Sua habilidade não era apenas descobrir, mas traduzir.
O Arquiteto da Clareza
Nos corredores do MIT, Stanford e outras universidades de ponta, os livros de Bertsekas não eram apenas material de apoio; eram o currículo. Colegas e ex-alunos o descrevem como um mestre na arte de destilar conceitos difíceis em explicações simples, mas rigorosamente precisas. Asu Ozdaglar, chefe do departamento de Engenharia Elétrica e Ciência da Computação do MIT, credita a uma aula de otimização de Bertsekas a decisão de mudar o rumo de sua própria carreira. “A clareza conceitual e o rigor matemático que ele trazia a cada tópico [...] estabeleceram uma fundação que continua a informar meu trabalho acadêmico”, afirmou ela.
Sua mentoria era tão elegante quanto sua prosa. Steven E. Shreve, hoje professor emérito na Carnegie Mellon, lembra de ter pedido a Bertsekas para ser seu orientador de doutorado. Em vez de uma resposta direta, Bertsekas entregou-lhe o rascunho de um manuscrito — que viria a ser o clássico “Dynamic Programming and Stochastic Control” — e pediu que o revisasse. “Aprendi a teoria da programação dinâmica [...] recebendo instrução individualizada. Quando o livro finalmente foi publicado, Dimitri generosamente reconheceu minha participação, como se eu tivesse feito um favor a ele, e não o contrário”, recorda Shreve. A obsessão pela qualidade do texto o levou a fundar sua própria editora, a Athena Scientific, garantindo controle total sobre o design e a didática de suas publicações.
Da Ciência à Arte
A amplitude de sua curiosidade era notável. Robert Gallager, professor emérito do MIT, coautor de “Data Networks” com Bertsekas em 1987, lembra que o campo mudava drasticamente na época. “Dimitri era o parceiro ideal, capaz de traduzir rapidamente conceitos difíceis em explicações simples, mas precisas, e de combinar meu conhecimento com o dele em um todo compreensível”. Essa capacidade de síntese foi crucial para o desenvolvimento de outra área. Seu livro com John Tsitsiklis, “Neuro-Dynamic Programming”, é visto hoje como uma obra precursora, que antecipou e ajudou a definir muitas das ideias centrais do que se tornaria o campo de aprendizado por reforço (reinforcement learning).
Para Bertsekas, a pesquisa era uma forma de arte. Em um ensaio de 2025, ele explorou a intersecção entre o trabalho de um técnico, um artesão e um artista, argumentando que a grande ciência vive nesse cruzamento. Ele próprio era a personificação dessa ideia: um “homem renascentista”, como o descreveu o colaborador David Castañón, que aplicava seu olhar estético não apenas aos algoritmos, mas também às ilustrações de seus livros e às fotografias que tirava em suas viagens. “Para Dimitri, tratava-se de descobrir significado, de revelar a maneira ‘certa’ de ver um assunto, enriquecê-lo e transmiti-lo de maneira cristalina”, complementa Tsitsiklis.
Seus ex-alunos, muitos dos quais se tornaram gigantes em suas próprias áreas, lembram-se do homem por trás do intelecto. Benjamin Van Roy, professor em Stanford, recorda que os estudantes de PhD se referiam a Bertsekas como um “imortal”, mas que com o tempo a figura intimidadora deu lugar a um amigo. Para outros, como Yuchao Li, pós-doutorando que o teve como mentor na Arizona State University, ele era como “um pai amoroso, cheio de sabedoria infinita”. O legado de Dimitri Bertsekas, portanto, não está apenas nos algoritmos que ajudou a criar, mas na clareza que ele trouxe ao mundo e na inspiração que semeou em todos que ensinou — seja pessoalmente ou através de suas páginas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · MIT News





