Em um intervalo de menos de 48 horas, Matt Mullenweg, fundador e CEO da Automattic, foi do afastamento forçado pelo conselho de administração ao anúncio de que estava novamente “no controle” da empresa. O drama, que se desenrolou publicamente em canais de Slack, culminou com Mullenweg declarando o fim do impasse, enquanto o CEO interino nomeado, o CFO Mark Davies, teve sua conta na plataforma desativada.
A sequência de eventos, reportada inicialmente pelo TechCrunch e pela 404 Media, parece ser o clímax de uma tensão crescente. Para uma companhia que é a espinha dorsal de uma fatia significativa da internet através do WordPress.com, a instabilidade no comando levanta questões críticas sobre governança, cultura corporativa e o futuro de um dos pilares da web aberta.
Um capitão errático
A retomada de poder por Mullenweg foi marcada por uma comunicação no mínimo peculiar. Em um canal de Slack para toda a empresa, ele postou “Não chame isso de um retorno”, com um link para o videoclipe de “Mama Said Knock You Out”, de LL Cool J, e alterou sua foto de perfil para uma imagem sua usando um chapéu de pirata e um tapa-olho. O fundador, que na quarta-feira havia acusado o conselho de “conspirar” contra ele, afirmou na quinta-feira que o mesmo conselho estava “de volta a um acordo”.
Este episódio não é um raio em céu azul. Relatos de funcionários nos últimos dois anos, compilados pela 404 Media, descrevem uma liderança “caótica e desestabilizadora”. A lista de queixas inclui demissões, testes de lealdade, abandono de projetos comunitários e até o uso de marcas d'água em mensagens para rastrear vazamentos para a imprensa. A imagem que emerge é a de uma cultura personalista em conflito com o ethos distribuído e open-source que a Automattic historicamente representou.
O futuro em um rebocador
Enquanto a poeira da crise de governança ainda não assentou, Mullenweg publicou um post enigmático em seu blog pessoal anunciando a compra de um rebocador. Sem mencionar diretamente o conflito, ele refletiu sobre a dificuldade de encontrar bons guardiões para uma criação, afirmando que “ninguém amará uma coisa como o dono original”. A metáfora pode ser lida tanto como uma justificativa para sua permanência no poder quanto um sinal de distanciamento da gestão cotidiana.
O silêncio do conselho de administração após a reviravolta é notável e deixa um vácuo de autoridade. A capitulação — ou o mal-entendido, como sugere Mullenweg — expõe a fragilidade da governança da empresa. Para os milhares de funcionários e os milhões de usuários que dependem da estabilidade de suas plataformas, a incerteza persiste.
A novela corporativa na Automattic parece ter seu capítulo mais agudo encerrado, mas as causas subjacentes permanecem. A questão para o ecossistema que orbita o WordPress não é se Mullenweg está no controle, mas que tipo de controle ele pretende exercer a partir de agora, e a que custo para a cultura e a previsibilidade da organização.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · 404 Media





