A reeleição de Ronald Reagan em 1984, consolidada por uma vitória esmagadora, permanece como um marco de interrogação na história política americana. Na época, observadores questionavam como um ator de Hollywood, cuja capacidade intelectual era frequentemente alvo de escrutínio, conseguia capturar o imaginário nacional com uma retórica nostálgica sobre os valores dos anos 1950. Décadas depois, o cenário de 2026 impõe uma indagação semelhante: como um líder envolto em controvérsias judiciais e retórica divisiva consegue manter uma base de apoio tão resiliente e numerosa? A resposta, segundo a perspectiva da filósofa política Wendy Brown, não reside apenas na estratégia de campanha, mas em uma condição cultural mais profunda que permeia a sociedade contemporânea.
A leitura aqui é que o fenômeno transcende a política partidária convencional. Não se trata meramente de uma disputa entre democratas e republicanos, mas de um sintoma de um niilismo sistêmico que se instalou na vida pública. A confiança nas instituições e a crença em narrativas compartilhadas de progresso humano foram corroídas, deixando um vácuo onde valores, antes ancorados na moralidade ou na autoridade religiosa, tornaram-se mercadorias maleáveis, usadas para fins puramente instrumentais.
A falência da racionalidade iluminista
A ascensão do pensamento científico e a desmistificação do mundo, embora tenham impulsionado o desenvolvimento tecnológico, deixaram um vazio existencial que a ciência, por definição, não preenche. A razão pode explicar como os fenômenos ocorrem, mas não oferece uma bússola moral sobre como devemos viver ou o que devemos valorizar. Com o declínio da autoridade religiosa tradicional, a sociedade ocidental encontrou-se em um espaço liminar onde os valores perderam sua base fixa.
Nesse contexto, valores tornaram-se "significantes flutuantes". Eles são facilmente traficados, instrumentalizados e, por fim, esvaziados de significado. Quando a política se torna uma extensão de preferências de consumo — onde o que você come ou assiste define sua identidade política — a profundidade do debate público é sacrificada. O niilismo, longe de ser apenas uma atitude de desespero individual, manifesta-se como uma desordem moral onde a verdade é subordinada ao poder e ao desejo imediato.
O mecanismo do culto à personalidade
Donald Trump surge, nesta análise, como o expoente máximo dessa era niilista. Sua retórica não busca a veracidade, mas a criação de uma realidade paralela que atenda às necessidades narcísicas de seu eleitorado. O mecanismo é claro: ao rejeitar a responsabilidade e o escrutínio, ele desinibe a agressão de seus seguidores, validando a ideia de que a política é uma guerra de sobrevivência onde qualquer meio é justificável para alcançar o fim desejado.
Essa instrumentalização da política transforma a democracia em um campo de batalha cultural. O que deveria ser um debate sobre políticas públicas é substituído por uma luta sobre quem detém a autoridade para definir a realidade. Para os aliados de Trump, a mentira deixa de ser uma falha ética e passa a ser vista como um imperativo moral frente a um sistema percebido como hostil. A linguagem, degradada e esvaziada, torna-se apenas uma ferramenta de dominação.
Implicações para o tecido social
A polarização extrema que observamos não é apenas o efeito, mas o sintoma de um sistema que perdeu o seu centro. Quando a política se infiltra em todos os aspectos da vida privada — da educação dos filhos às escolhas de lazer — o tecido social se fragmenta. Essa hiper-politicização dos valores cria bolhas onde o diálogo é impossível, pois os interlocutores não compartilham mais os mesmos fatos ou a mesma base moral.
Para o Brasil e outras democracias, o paralelo é inquietante. A ascensão de movimentos que rejeitam a expertise e a ciência, em favor de uma nostalgia por um passado idealizado, é um fenômeno global. O desafio para as instituições liberais não é apenas combater narrativas específicas, mas entender que o apelo desses movimentos reside em uma promessa de segurança epistemológica que a modernidade, com sua complexidade, não consegue mais oferecer.
O caminho para a reconstrução
O que permanece incerto é se a política pode, de fato, ser reencantada com valores que não sejam puramente instrumentais. A sugestão de Brown é que a solução não virá de argumentos racionais puros, mas da educação do desejo. É necessário reconhecer as aspirações legítimas das pessoas por dignidade e segurança, canalizando-as para projetos políticos que ofereçam uma visão de futuro genuinamente inclusiva.
Daqui para frente, o foco deve ser a reconstrução de uma linguagem moral comum. Se a política continuar a ser apenas um reflexo da trivialização dos valores, o risco de uma erosão democrática irreversível aumenta. A questão que fica é se seremos capazes de oferecer uma alternativa que não apenas critique o niilismo, mas que inspire uma nova forma de pertencimento e responsabilidade compartilhada.
A política de valores não precisa ser reacionária, mas precisa ser capaz de oferecer um sentido que a frieza técnica da gestão pública atual falhou em proporcionar. O futuro dependerá da capacidade de reconectar a cidadania a ideais que transcendam o imediatismo do ciclo eleitoral.
Com reportagem de Brazil Valley
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