Um consórcio internacional liderado por pesquisadores do MIT, do Broad Institute e do Dana-Farber Cancer Institute anunciou a criação de quase 700 novos modelos de câncer, desenvolvidos diretamente a partir de tumores de pacientes. O acervo, detalhado em um novo artigo na revista Nature, é o resultado de uma década de trabalho e já está disponível para a comunidade científica global.

A iniciativa, batizada de Human Cancer Models Initiative (HCMI), ataca uma lacuna fundamental na pesquisa oncológica: a baixa diversidade e representatividade das linhagens celulares existentes. A tese aqui é que, ao criar "avatares" biológicos mais fiéis — na forma de organoides tridimensionais —, a ciência ganha uma ferramenta de alta precisão para validar alvos terapêuticos e testar novos fármacos antes de ensaios clínicos.

Do tumor ao organoide: a engenharia da pesquisa

Até agora, a pesquisa global dependia de cerca de mil linhagens de células cancerígenas, muitas estabelecidas há décadas e cultivadas em placas bidimensionais. Projetos de sequenciamento genômico, como o The Cancer Genome Atlas, revelaram que esses modelos não capturavam a vasta complexidade genética dos tumores, deixando de fora muitos tipos raros de câncer e sub-representando pacientes de origens não europeias. Lançada em 2016 com financiamento do National Cancer Institute (NCI) dos EUA, a HCMI buscou corrigir essa distorção.

A equipe obteve mais de 2.700 amostras de tumores de pacientes que consentiram com o uso para pesquisa, coletadas nos Estados Unidos, Reino Unido e Holanda. Cerca de um terço delas foi convertida com sucesso em culturas celulares estáveis. A principal inovação foi o foco em organoides — estruturas 3D de células que crescem em um tipo de gel e mimetizam de forma mais acurada a arquitetura e o perfil molecular do tecido original. O processo é complexo e pode levar até um ano para estabelecer cada modelo.

Um mapa de vulnerabilidades aberto à ciência

Todos os modelos desenvolvidos no âmbito da HCMI foram depositados na American Type Culture Collection (ATCC), uma organização sem fins lucrativos que distribui linhagens celulares, tornando-os um recurso público. Cada modelo é acompanhado por um vasto conjunto de dados, incluindo as mutações genéticas do paciente e o histórico de tratamentos recebidos, permitindo que pesquisadores realizem triagens em larga escala para identificar fragilidades específicas de cada tipo de tumor.

O impacto já é visível. Em artigos complementares também publicados na Nature, outras equipes de pesquisa demonstram o uso desses novos modelos para alimentar o Cancer Dependency Map (DepMap), um atlas que mapeia as vulnerabilidades genéticas de mais de 2.000 tipos de câncer. Embora o projeto formal da HCMI esteja sendo concluído, os cientistas envolvidos afirmam que este é apenas o começo. O plano é continuar desenvolvendo modelos, com foco em cânceres pediátricos e outros tipos raros.

O esforço em escala industrial para transformar tecido doado por pacientes em ferramentas de pesquisa robustas e abertas estabelece um novo padrão para a oncologia pré-clínica. O desafio, agora, é expandir essa "biblioteca viva" para que ela represente verdadeiramente todo o espectro do câncer humano, um objetivo que depende da colaboração contínua entre hospitais, cientistas e, fundamentalmente, os próprios pacientes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT News