Um leão-marinho da Califórnia encara a lente. Em seu pescoço, uma rede de pesca plástica se enterra na pele, formando uma ferida profunda e infeccionada. O olhar do animal, capturado pela fotógrafa Celia Kujala, estabelece uma conexão íntima e desconfortável. O resgate era impossível, dada a sua localização em meio a uma colônia lotada. A imagem, finalista na categoria Impacto da Conservação, é um microcosmo do que se tornou o prêmio Ocean Photographer of the Year: um exercício de testemunho, onde a beleza estonteante dos oceanos colide com a brutalidade do impacto humano.
Em seu sétimo ano, o concurso apresentado pela Oceanographic e pela Blancpain transcendeu o nicho da fotografia de natureza para se tornar uma plataforma de narrativa visual sobre o estado do planeta. Como disse Will Harrison, fundador da competição, “estas fotografias não apenas capturam o que está sob a superfície; elas trazem à tona as histórias que nosso planeta mais precisa que ouçamos”. A seleção de finalistas para 2026, cujos vencedores serão anunciados em setembro, reforça essa missão, equilibrando o sublime e o trágico com uma precisão cirúrgica.
O microcosmo e o macrocosmo
Uma das novidades mais significativas deste ano é a criação da categoria “Ocean Unseen: Hidden Worlds”, dedicada aos menores habitantes do oceano. É um reconhecimento de que o drama da vida marinha não se desenrola apenas em grande escala. A foto de Mitsuna Kawai de um peixe-fita subindo verticalmente nas águas escuras do Japão, cercado por um enxame de salpas gelatinosas, parece uma cena de outro mundo. Da mesma forma, o close-up de Steven Lopez no olho de uma garoupa-gigante revela minúsculos copépodes parasitas, um ecossistema inteiro prosperando em um único hospedeiro. Essas imagens exigem do espectador uma pausa e um ajuste de escala, revelando a complexidade que reside no invisível.
Na outra ponta do espectro, a categoria Vida Selvagem continua a entregar o drama em escala épica. A imagem de Rafael Fernandez Caballero, registrada no México, é avassaladora: uma orca emerge carregando, junto com seu grupo, a carcaça de um filhote de baleia-jubarte, resultado de uma caça cooperativa de quase uma hora. A fotografia captura o momento do triunfo predatório, mas seu subtexto, descrito na legenda, revela como o evento atrai outros predadores e necrófagos, como tubarões-sedosos, demonstrando a interconexão da teia alimentar. A câmera aqui não apenas congela um instante, mas documenta um processo ecológico complexo.
Entre a esperança e o impacto
O concurso estrutura-se em torno de uma tensão fundamental, espelhada nas categorias de Impacto e Esperança na Conservação. De um lado, a crônica da destruição. A foto de Daniel Taylor de um tubarão-sedoso circulando impotente após ser fisgado por um espinhel ilegal na Baja California é um soco no estômago. O pequeno grupo de peixes-piloto que permanece ao lado do tubarão condenado serve como um lembrete melancólico de que a perda de um único animal reverbera por todo o ecossistema. São imagens que funcionam como evidência, documentando crimes ambientais que ocorrem longe da costa e dos olhos do público.
Do outro lado, há um esforço consciente para documentar a resiliência e a ação humana positiva. A imagem de Francesca Page mostra milhares de lagostas juvenis sendo criadas em um sistema inovador no National Lobster Hatchery, no Reino Unido, para aumentar suas chances de sobrevivência na natureza. Em outra ponta do globo, a foto aérea de Daniel Edmond Sullivan Jr. captura a cerimônia de "paddle-out" em Maui, onde milhares de pessoas se reuniram no mar para homenagear as vítimas do incêndio florestal de 2023. A imagem transforma a dor em uma expressão comunitária de conexão com o oceano, um símbolo de luto e renovação.
O conjunto de finalistas do Ocean Photographer of the Year funciona, portanto, como um mosaico. Não oferece respostas fáceis nem uma visão monolítica. Em vez disso, apresenta um oceano de contradições: um lugar de beleza transcendental e fragilidade extrema, de estratégias de sobrevivência milenares e ameaças recentes, de destruição impensada e esperança resiliente. As fotografias são um convite para olhar mais fundo, mas a pergunta que elas deixam no ar é o que faremos depois de ver.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · DPReview





