A digitalização e a inteligência artificial podem ser a resposta para dois dos maiores desafios do agronegócio tradicional: a escassez de mão de obra e a falta de sucessão geracional. A avaliação é de Manuel Parras, catedrático da Universidade de Jaén (UJA), na Espanha, um dos epicentros globais da produção de azeite de oliva. Segundo reportagem da Forbes España, o especialista defende que a tecnologia é um caminho sem volta para garantir a competitividade do setor.
A visão de Parras, apresentada durante um evento na Universidade Internacional da Andaluzia, não trata a IA como um conceito abstrato, mas como uma ferramenta pragmática para resolver problemas concretos. A tese é que a tecnologia pode tornar o trabalho no campo mais eficiente e rentável, atraindo assim uma nova geração de agricultores que hoje hesita em assumir as operações familiares.
O sistema operacional do azeite
As aplicações da IA na cadeia do azeite vão do campo à mesa. No cultivo, sensores podem medir o estresse hídrico das oliveiras e o grau de umidade do solo, permitindo um uso mais racional da água. Drones são capazes de realizar a pulverização de defensivos com precisão cirúrgica, enquanto algoritmos analisam dados para gerar previsões de safra mais acuradas. A automação atinge seu ápice na colheita, com vibradores robóticos que, segundo Parras, já são capazes de identificar a melhor forma de sacudir a árvore para otimizar a coleta dos frutos, superando a eficiência humana.
Na indústria, o uso de "gêmeos digitais" (digital twins) permite simular e otimizar processos de extração do azeite antes mesmo de sua implementação física. Já na ponta da comercialização, a tecnologia blockchain surge como uma solução para garantir a rastreabilidade e a autenticidade do produto, combatendo fraudes e agregando valor para o consumidor que busca transparência sobre a origem do que consome.
O abismo digital no olival
O principal obstáculo para essa transformação, no entanto, não é tecnológico, mas socioeconômico. Parras aponta para a existência de um "abismo digital" que separa as grandes explorações agrícolas das pequenas. Enquanto os grandes produtores já estão adotando essas ferramentas para ampliar sua margem de competitividade, os pequenos agricultores ainda engatinham na digitalização, correndo o risco de serem deixados para trás.
O ponto central, segundo o acadêmico, é que a IA deve ser encarada como uma ferramenta, não como uma entidade autônoma. O desafio, portanto, não é apenas desenvolver a tecnologia, mas capacitar os agricultores para que possam extrair valor dela. A questão é se o setor conseguirá democratizar o acesso a essas inovações, garantindo que os ganhos de produtividade sejam distribuídos por toda a cadeia, e não concentrados nas mãos de poucos.
O futuro do azeite, assim como o de outras culturas agrícolas, parece depender menos da quantidade de robôs no campo e mais da capacidade do setor de incluir o pequeno produtor nessa nova equação tecnológica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





