Ao final deste ano, Kaumer Chieppe deixará a presidência do Grupo Águia Branca, um conglomerado familiar com faturamento previsto de R$ 23 bilhões. A transição, contudo, está longe de ser uma crise. É, na verdade, a mais recente aplicação de um modelo de governança peculiar que tem garantido a longevidade e o crescimento do grupo fundado há quase 80 anos.
A troca de comando é o gancho para entender como uma empresa que nasceu de uma compra de ônibus por impulso se tornou um gigante diversificado. A história da Águia Branca é um estudo de caso sobre pragmatismo, adaptação e, principalmente, sobre como estruturar a sucessão em negócios familiares — um dos maiores desafios do capitalismo brasileiro.
Do ônibus à diversificação
Tudo começou nos anos 1940, quando Carlos Chieppe, um comerciante de café, comprou um ônibus sem saber o que fazer com ele. Seguindo um conselho, iniciou uma linha informal de passageiros em Minas Gerais, mas perdeu a rota para um concorrente que a registrou formalmente. A lição sobre a importância da formalidade foi o primeiro grande aprendizado. De volta ao Espírito Santo, o negócio cresceu e, em 1957, a família adquiriu a empresa que daria nome ao grupo: a Viação Águia Branca, com seus 12 ônibus.
O grande salto, porém, veio nos anos 1970. Em um único ano, a empresa dobrou de tamanho duas vezes ao comprar concorrentes. Mais importante que o volume foram os ativos que vieram nos pacotes: um contrato de fretamento com a Usiminas, que originou a divisão de logística, e uma concessionária Mercedes, embrião do braço de comércio de veículos. Hoje, o transporte de passageiros representa apenas 7% da receita. As concessionárias respondem por 70% e a logística por 23%, uma inversão que demonstra a capacidade do grupo de se reinventar para além de seu negócio original.
A governança dos primos
Para gerir essa complexidade, a terceira geração da família Chieppe desenhou uma solução de governança incomum: um rodízio na presidência. Os quatro primos que hoje lideram o negócio — Décio, Renan, Kaumer e Igor — se revezam no comando do grupo e do conselho de administração em mandatos de quatro anos. Ao final do período, o executivo retorna à vice-presidência de sua área de origem. Kaumer, que liderou a expansão da logística, passará o bastão a Igor.
O modelo é uma tentativa de equilibrar mérito, experiência e os laços familiares, evitando a concentração de poder e os conflitos que costumam implodir dinastias empresariais. Como o próprio Kaumer admite em entrevista à InfoMoney, o que funcionou para esta geração pode não servir para a próxima. A filosofia parece ser a de buscar aconselhamento externo, mas adaptar as soluções à cultura interna, baseada em “respeito e diálogo”, segundo o CEO.
O caso da Águia Branca ilustra que a perpetuidade de um negócio familiar depende menos de fórmulas rígidas e mais de um pacto de governança vivo, capaz de se adaptar às novas gerações e aos novos desafios do mercado. A questão que fica no ar é se este arranjo continuará sendo suficiente para pilotar o império nas próximas décadas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





