A transição para a inteligência artificial não está apenas canibalizando orçamentos de tecnologia, mas atacando simultaneamente os mercados globais de software e de serviços. Em vídeo publicado no canal The Frontier | AI em 7 de maio de 2025, sócios da Sequoia Capital argumentaram que o mercado endereçável inicial da IA é uma ordem de grandeza superior ao da transição para a nuvem. A diferença central reside na física de distribuição: enquanto a adoção da nuvem enfrentou fricção inicial, a infraestrutura atual de internet e redes sociais eliminou barreiras de entrada, permitindo adoção instantânea. Com o custo computacional caindo drasticamente e o pré-treinamento de modelos dando sinais de desaceleração, o foco do capital de risco desloca-se da construção de infraestrutura pura para a camada de aplicação, onde empresas tentam converter engajamento inicial naquilo que a gestora classifica como mudança duradoura de comportamento corporativo.

A corrida pela camada de aplicação

O avanço dos modelos de fundação em direção à camada de aplicação — impulsionado por tempo de computação no teste (test-time compute) e capacidades de raciocínio — força startups a adotarem uma abordagem vertical. A Sequoia defende que o desenvolvimento deve partir do cliente para a tecnologia, resolvendo problemas complexos e específicos de funções ou indústrias, muitas vezes mantendo humanos no circuito de decisão. A gestora alerta contra a ilusão da "receita de vibração" (vibe revenue), exigindo métricas que comprovem retenção real em vez de mera experimentação de usuários.

Um dos vetores dessa mudança é a ascensão da geração de código como a primeira categoria a atingir adequação clara entre produto e mercado. A inteligência artificial está alterando a economia da criação de software, inaugurando uma era de abundância onde o custo do trabalho técnico despenca. Nesse cenário de proliferação de código barato, a gestora projeta que o gosto editorial e o discernimento de produto se tornarão os ativos mais escassos e valiosos.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a transição de um modelo de venda de ferramentas (orçamento de software) para a venda de resultados (orçamento de trabalho corporativo) altera fundamentalmente o perfil de margem bruta das empresas de tecnologia. Historicamente, empresas de serviços operam com margens menores que as de software puro, um desafio que as novas aplicações de IA precisarão equilibrar estruturalmente à medida que tentam capturar valor na ponta final da cadeia.

A infraestrutura da economia de agentes

O amadurecimento das aplicações aponta para o que a Sequoia classifica como uma futura economia de agentes. Diferente de assistentes isolados, redes de máquinas transacionarão recursos, monitorarão confiabilidade e operarão fluxos de trabalho inteiros. Agentes verticais treinados de ponta a ponta para domínios específicos — como testes de penetração em segurança cibernética ou resolução de problemas em redes de TI — já demonstram capacidade de superar o desempenho humano.

Para que essa economia opere em escala, a arquitetura técnica exige três pilares ainda em construção: identidade persistente (agentes que mantêm coerência e memória contínua do usuário ao longo do tempo), protocolos de comunicação fluidos (um equivalente ao TCP/IP para a troca de dados e valor entre inteligências artificiais) e novas camadas de segurança projetadas para interações sem intervenção humana direta.

Essa automação sistêmica impõe uma mudança drástica no comportamento profissional. A Sequoia argumenta que a computação deixará de ser estritamente determinística para se tornar estocástica. Profissionais precisarão adotar uma mentalidade de gestão, atuando menos como executores individuais e mais como coordenadores de agentes autônomos, lidando com níveis inéditos de alavancagem operacional combinados a uma incerteza intrínseca aos resultados gerados por modelos probabilísticos.

A tese da Sequoia delineia um mercado onde a barreira técnica para a criação de software tende a zero, deslocando o prêmio financeiro para a distribuição e a precisão do domínio vertical. Se a promessa do "unicórnio de uma pessoa só" ainda não se materializou, a trajetória indica que as empresas escalarão mais rápido e com estruturas organizacionais mais enxutas. O desafio das startups de inteligência artificial deixa de ser a demonstração de capacidade técnica bruta para se concentrar na construção de confiança institucional e na integração profunda aos fluxos de capital e trabalho do mundo físico.

Fonte · Brazil Valley | AI