Um estudo global realizado pela Sinch, empresa de plataformas de comunicação, posiciona o Brasil de forma inesperada na corrida da inteligência artificial corporativa. Segundo a pesquisa "The AI Production Paradox", que ouviu mais de 2.500 líderes de negócios em dez países, 76% das empresas brasileiras já utilizam agentes de IA em produção. O índice não apenas supera a média global de 62%, mas também coloca o país à frente dos Estados Unidos, onde o patamar é de 67%.
Esta dianteira, contudo, revela um paradoxo. O mesmo levantamento aponta que o Brasil lidera também em implementações de IA que precisaram ser interrompidas ou revertidas. Oito em cada dez empresas no país (80%) já passaram por essa situação, acima da média global de 74%. A principal causa para o recuo são as falhas de governança, com vazamentos de dados sendo o motivo em 39% dos casos — um número alarmante quando comparado aos 24% nos EUA.
O dilema da velocidade
A leitura dos dados sugere que o ecossistema brasileiro opera num modo de alta velocidade e alta tolerância ao risco, priorizando a adoção rápida em detrimento de uma implementação mais estruturada. A pressa em colocar a tecnologia em operação, possivelmente para não perder competitividade, parece ter deixado em segundo plano questões cruciais de segurança e governança. O resultado é um ciclo de "lança e conserta" que, embora demonstre agilidade, pode minar a confiança e a sustentabilidade das operações de IA a longo prazo.
A maturidade, portanto, não está na adoção em si, mas na capacidade de sustentar esses projetos de forma segura e escalável. O fato de o Brasil liderar em "rollbacks" por vazamento de informações pessoais indica uma lacuna fundamental na infraestrutura que suporta essas novas ferramentas. O foco parece ter sido a escolha do modelo de IA, e não a arquitetura de dados e segurança ao redor dele.
A infraestrutura como nova fronteira
Apesar dos percalços, o apetite por investimento permanece robusto. Dois terços das empresas brasileiras (66%) planejam aumentar seus orçamentos de IA em mais de 25%, superando mercados como EUA e Alemanha. Este movimento, combinado a outro dado do estudo, sinaliza uma mudança de foco: 48% das organizações no Brasil estão avaliando novos fornecedores de tecnologia para suportar suas estratégias de IA, indicando que a discussão está amadurecendo.
O desafio, como aponta Mario Marchetti, CEO da Sinch na América Latina, não é mais apenas adotar a tecnologia, mas garantir que ela seja "segura, governada e capaz de entregar experiências consistentes". A conversa avança da experimentação com modelos para a construção de uma fundação tecnológica sólida, capaz de integrar canais e proteger dados à medida que os agentes ganham autonomia.
O avanço brasileiro na adoção de IA é notável, mas a liderança é precária. A capacidade de transformar essa largada veloz em uma vantagem competitiva duradoura dependerá diretamente da habilidade das empresas em resolver os desafios de infraestrutura, segurança e governança que a própria velocidade da adoção expôs.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





