O Brasil caminha na contramão do aperto monetário global, com espaço para que a taxa Selic recue até o patamar de 13%, segundo análise de Alexandre Viotto, chefe de banking da EQI. Em um cenário onde os principais bancos centrais sobem juros para conter a inflação, a posição brasileira parece, à primeira vista, um diferencial competitivo.
Contudo, essa vantagem teórica esbarra em uma realidade mais dura. A combinação de volatilidade global e, principalmente, as incertezas do ciclo eleitoral doméstico estão provocando uma aversão ao risco que anula o otimismo de juros mais baixos. O resultado é um movimento de saída de capital, tanto estrangeiro quanto local, do mercado de ações brasileiro.
O oásis e a miragem
A tese para o corte de juros é estrutural. O Brasil, que iniciou seu ciclo de aperto monetário antes de outras economias, hoje ostenta uma das maiores taxas de juros reais do mundo — "só perdemos para a Rússia, um país que está em guerra", pontuou Viotto em entrevista ao Money Times. Essa "gordura" permite que o Banco Central brasileiro navegue com mais flexibilidade, enquanto seus pares internacionais aplicam o "remédio amargo" de juros altos para domar a inflação.
Essa condição, no entanto, cria um cenário complexo. Se por um lado a queda da Selic deveria, em tese, baratear o crédito e estimular a alocação em ativos de risco como ações, o ambiente macro e político atua como um freio de mão. O oásis de juros em queda pode se tornar uma miragem se a percepção de risco continuar a se deteriorar.
A fuga para a segurança
Os números refletem essa desconfiança. Fundos de ações globais registraram retiradas de US$ 23 bilhões recentemente, com mercados emergentes perdendo US$ 1,6 bilhão no agregado. O Brasil não está imune. Segundo Viotto, o movimento de internacionalização de portfólios se acelerou entre investidores locais, que buscam diversificar para além do CDI e das ações brasileiras.
A lógica é simples: com a expectativa de que o próximo ano seja mais difícil para as empresas devido ao cenário político, "fica difícil saber em qual ação apostar", afirmou o executivo. Na dúvida, a estratégia predominante tem sido vender posições locais e buscar a segurança de ativos no exterior, um movimento clássico de flight to safety.
O paradoxo está posto. O Banco Central pode ter uma rota clara para reduzir a Selic, mas para o investidor, o caminho do mercado de ações está nebuloso. A divergência entre a política monetária e o sentimento do mercado expõe uma verdade fundamental: para o capital, a previsibilidade muitas vezes vale mais do que o rendimento.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





