Em 1970, num balcão de lanchonete em Oklahoma City, David Green, então com 28 anos, desabafava com outros gerentes sobre as frustrações do trabalho. A conversa derivou para o sonho de um negócio próprio. Alguém sugeriu fabricar relógios. “Tenho uma ideia melhor”, disse Green. “Pequenas molduras em miniatura.” Uma nova moda na decoração de interiores estava criando uma demanda por pequenos quadros, e ele tinha dificuldade em encontrá-los. A ideia parecia funcionar. Com um empréstimo de US$ 600, Green e seus sócios compraram o equipamento e a matéria-prima, montando uma operação na garagem de casa.
A mitologia de fundação da Hobby Lobby, hoje uma gigante do varejo e um dos maiores símbolos corporativos do conservadorismo cristão nos Estados Unidos, é construída sobre essa imagem de humildade e trabalho duro. A família inteira foi mobilizada: a esposa Barbara e os filhos Mart e Steve, de nove e sete anos, colavam as molduras na mesa da cozinha. Green mais tarde brincaria que o negócio foi erguido sobre “trabalho infantil e trabalho escravo”. A tese deste artigo, baseada em um trecho do livro The Gospel According to Hobby Lobby, é que a sobrevivência inicial deste império não se deveu apenas à providência divina, mas a um grupo bastante terreno e inesperado: a contracultura.
A salvação pela contracultura
Após o sucesso inicial com as vendas de molduras por atacado, a empresa abriu sua primeira loja de varejo em 1972. O espaço de menos de 30 metros quadrados no centro de Oklahoma City tinha um estoque modesto de lantejoulas, miçangas e tintas. O negócio patinava. O movimento era tão baixo que a filha de Green, então no jardim de infância, podia passar horas brincando no chão da loja sem ser perturbada. A virada, segundo o próprio fundador, veio de uma fonte improvável. “Os hippies de cabelo comprido daquela época entravam em nossa loja e sentavam-se no tapete para enfiar contas de várias cores”, recordou Green anos depois. “Graças a Deus por eles.”
Essa clientela, parte do movimento que a ascendente direita religiosa via como um sinal do apocalipse, foi quem garantiu o fluxo de caixa necessário para a Hobby Lobby não apenas sobreviver, mas prosperar. A busca dos “filhos da flor” por materiais para seus artesanatos e joias caseiras financiou a expansão para uma segunda loja e, em 1974, gerou uma receita bruta de US$ 150 mil. O episódio revela uma ironia fundamental na trajetória da empresa: o capital que viria a financiar uma das mais poderosas agendas evangélicas da América foi, em sua origem, fornecido pelos mesmos “ímpios” que essa agenda se propunha a combater. A necessidade comercial falou mais alto que a ideologia, num pragmatismo que permitiu que o negócio florescesse antes de se tornar uma missão.
Do lucro à profecia
Foi somente no final da década de 70, com o negócio já consolidado, que David Green sentiu o chamado para alinhar sua empresa a um propósito maior. O contexto cultural era de efervescência religiosa. A América via a ascensão de televangelistas como Pat Robertson e pregadores de “valores familiares” como James Dobson, que mobilizavam uma base cristã conservadora contra o que percebiam como a decadência moral da sociedade — o feminismo, os direitos dos homossexuais e o “humanismo secular”. Inspirado por esse fervor, Green passou por uma transformação pessoal e empresarial. O ponto de inflexão ocorreu em 1979, durante uma assembleia da sua igreja.
Enquanto ouvia um apelo por doações para a distribuição de literatura bíblica pelo mundo, Green sentiu uma voz interior, que identificou como a de Deus, instruindo-o a doar US$ 30 mil — uma quantia que ele considerava impossível na época. Após hesitar, ele e a esposa decidiram fazer a doação em quatro cheques pós-datados. Dias depois, um oficial da igreja ligou para contar que missionários na África haviam orado por fundos exatamente no dia em que os cheques foram enviados. Para Green, foi uma epifania. “Algo clicou dentro de mim”, disse ele. “Ficou permanentemente estabelecido que Deus tinha um propósito para um homem de negócios.” A partir daquele momento, a Hobby Lobby deixaria de ser apenas uma empresa para se tornar um “negócio que doa”, um instrumento para o Reino de Deus.
A aventura comercial iniciada numa garagem com US$ 600 e salva por clientes da contracultura encontrava, enfim, sua vocação sagrada. A missão de Green tornou-se explícita: “Como acredito que existe um céu real e um inferno real, quero direcionar o maior número possível de pessoas para o céu e para longe do inferno”. O lucro gerado pela venda de miçangas, lantejoulas e molduras seria reinvestido numa guerra cultural e espiritual, transformando a gigante do artesanato em um dos mais influentes e controversos atores da vida pública americana.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





