O sul da Europa enfrenta uma nova e perigosa realidade em seus incêndios florestais. Segundo um estudo publicado na revista Scientific Reports e repercutido pelo jornal espanhol El Confidencial, o aquecimento global está criando condições climáticas tão extremas que tornam os incêndios simplesmente incontroláveis, independentemente dos recursos mobilizados para combatê-los.
A pesquisa, que tem o cientista atmosférico Raúl Cordero como um de seus autores, aponta uma transformação crítica: a Europa passou de uma era de muitos incêndios pequenos para uma de poucos incêndios, porém catastróficos. A tese central é que o debate não é mais sobre a eficiência do combate, mas sobre um ambiente que atingiu seu ponto de saturação, onde calor, secura e vento se combinam para criar verdadeiras tempestades de fogo.
A ciência do desastre
Os dados do estudo são categóricos. Desde a década de 1980, o número de dias de verão com risco extremo de incêndio mais do que dobrou em países como Espanha, França, Portugal, Itália e Grécia. Em algumas regiões, o aumento foi próximo de 300%. Para Cordero, essa intensificação só pode ser atribuída ao aquecimento global. Ondas de calor sucessivas extraem a umidade do solo e da vegetação, convertendo vastas áreas em combustível altamente inflamável. A combinação de um inverno úmido, que estimula o crescimento da vegetação, seguido por uma primavera e verão secos e quentes, cria o que o cientista descreve como "os ingredientes para um desastre".
O limite da extinção
O paradoxo é que o sucesso no combate a incêndios menores ao longo de décadas pode ter contribuído para o cenário atual. A supressão eficaz permitiu o acúmulo de biomassa (vegetação seca, galhos e folhas) no solo das florestas. Quando um incêndio finalmente ocorre sob condições climáticas extremas, ele encontra uma quantidade massiva de combustível, o que alimenta uma propagação explosiva e de intensidade sem precedentes. É neste ponto que a tecnologia e os recursos humanos atingem seu limite. "Não se pode deter a propagação do fogo quando as condições climáticas são extremas. Não é uma questão de recursos", afirma Cordero na reportagem.
Os mega-incêndios recentes na França e na Espanha, que bateram recordes históricos, são a prova viva desse novo normal. O desafio, portanto, deixa de ser apenas a resposta imediata e passa a ser a gestão de longo prazo da paisagem e, fundamentalmente, a mitigação das causas que tornam o continente cada vez mais inflamável.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · El Confidencial — Tech





