Uma proposta controversa vinda das Ilhas Baleares, na Espanha, está redefinindo os termos do debate sobre a crise migratória na Europa. O governo local, por meio da conselheira de Famílias e Bem-Estar Social, Sandra Fernández, defende a localização das famílias de menores estrangeiros desacompanhados para avaliar a possibilidade de repatriá-los. A medida, segundo reportagem da Forbes España, é apresentada não como uma deportação, mas como um ato de proteção.

A tese central é que muitas dessas crianças e adolescentes não se encontram em uma “situação de desproteção real”. Embora estejam sozinhos no arquipélago, manteriam contato com seus parentes. A iniciativa surge enquanto os centros de acolhimento da região atingem um ponto de saturação, com quase 900 menores sob tutela do Estado, sobrecarregando recursos financeiros, humanos e de infraestrutura, especialmente na ilha de Formentera, onde a situação é descrita como “dramática”.

O argumento da “família protetora”

A lógica apresentada por Fernández é que “as crianças onde melhor estão é com suas famílias”. A proposta consiste em um esforço ativo, em colaboração com o governo central espanhol e os próprios menores, para identificar os familiares nos países de origem e certificar que são “famílias protetoras”. Caso a avaliação seja positiva, seriam iniciados os trâmites para o retorno, um processo que a conselheira admite encontrar “muitas dificuldades”, mas que considera ser de “puro sentido comum”.

Essa abordagem desafia a premissa de que a tutela estatal em um país europeu é invariavelmente a melhor alternativa para um menor desacompanhado. Ao enquadrar a repatriação como uma forma de reunificação familiar, o governo balear introduz uma variável complexa na equação humanitária. A política levanta um debate fundamental sobre o que constitui o “melhor interesse da criança” quando confrontado com a capacidade administrativa e financeira do Estado de acolhimento.

O movimento pode ser lido como uma resposta pragmática à pressão insustentável sobre os serviços sociais locais. Contudo, a linha que separa o bem-estar da criança da conveniência administrativa é tênue. A proposta será o tema central de uma Conferência Setorial de Infância e Adolescência em agosto, onde a tensão entre a obrigação de proteger e a necessidade de gerir um fluxo migratório crescente será o ponto focal das discussões entre as autoridades espanholas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España