Em algumas das economias mais estáveis e bem governadas do mundo, uma crise de confiança silenciosa se instala nos conselhos de administração. Um novo relatório da consultoria Heidrick & Struggles, baseado em uma pesquisa com mais de mil CEOs e diretores, revela que metade dos conselheiros nos países nórdicos e do Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo) duvida que as competências de seus atuais CEOs correspondam ao que a empresa precisará nos próximos dois a três anos. O número é significativamente maior que a média europeia, de 40%.
O dado, reportado pela Fortune, é paradoxal. A região é lar de potências globais como Spotify, Novo Nordisk e Ericsson, e reconhecida por modelos de governança corporativa que prezam pelo consenso e pela estabilidade. A leitura, no entanto, é que as mesmas características que garantiram o sucesso no passado — longa permanência no cargo e uma cultura de promoção interna — podem estar se tornando um passivo em um cenário de intensa volatilidade tecnológica e geopolítica.
A estabilidade como passivo
Um dos principais fatores apontados é a longevidade dos executivos no posto. Segundo o relatório, CEOs na região permanecem no cargo por muito mais tempo do que em outros mercados. A média de mandato na Bélgica é de nove anos, a segunda mais longa da Europa. Na Suécia e na Noruega, são sete anos. Dados da Spencer Stuart corroboram a tendência: em 2025, a Noruega teve a menor taxa de rotatividade de CEOs entre as principais empresas listadas na Europa, sem nenhuma nova nomeação reportada.
Essa inércia preocupa em um momento em que 90% dos executivos esperam que a estratégia e o modelo operacional de suas empresas mudem em breve, pressionados por disrupção de IA, choques no preço de energia e tensões geopolíticas. O risco, segundo especialistas citados na reportagem, é que as condições de negócio mudem mais rápido do que a capacidade dos conselhos de responder. A consequência é uma paralisia estratégica: o conselho perde a fé no líder, mas adia a decisão, frustrando talentos e perdendo o ritmo da transformação.
O risco da endogenia
Outro ponto crítico é a preferência por promover "pratas da casa". Na Holanda, o tempo médio que um candidato interno passa na empresa antes de se tornar CEO aumentou de 9,5 anos em 2023 para quase 15 anos em 2025. Embora executivos internos tragam profundo conhecimento da companhia — uma vantagem em tempos estáveis —, a análise sugere que líderes externos tendem a performar melhor em períodos de turbulência, trazendo a perspectiva de fora necessária para "chacoalhar as estruturas".
Um sinal de mudança veio da Heineken. Após 87 anos de história como empresa listada, a cervejaria holandesa quebrou a tradição ao nomear um CEO de fora, sem experiência prévia no setor de bebidas. O movimento reflete uma demanda crescente por líderes com experiência em diferentes mercados e culturas. O antigo manual de sucessão, que ungia um herdeiro com anos de antecedência, parece não mais funcionar. A recomendação de especialistas é manter vários candidatos viáveis em jogo, adaptando a escolha ao cenário do momento.
A pesquisa não é necessariamente um sinal de disfunção. É possível que a cultura de alto consenso e confiança da região simplesmente encoraje uma franqueza maior para admitir o desalinhamento. Modelos de governança que exigem a participação de múltiplos stakeholders, como representantes de funcionários, são desenhados para expor discordâncias, não para escondê-las. Ainda assim, a lição mais importante do relatório é um alerta universal: mesmo os conselhos mais deliberativos e rigorosos podem acabar escolhendo um líder preparado para o mundo que foi, e não para o que está por vir.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





