A terra é quase redonda. Os mares, curvos, a abraçam, coroados de gelo em seus extremos. É perto desse gelo que nada a grande Baleia Azul. Seu coração, quente, pesa mil quilos. Sua língua, o dobro. Seu corpo inteiro, cento e cinquenta toneladas. Restam tão poucos de sua espécie que ela muitas vezes não encontra um parceiro, arrastando sua sexualidade de quase dois metros por águas gélidas, solitária. A escala é quase inconcebível. Seu cérebro, diz o poeta, é grande o suficiente para um homem dormir dentro.

Essa imagem, de uma magnitude quase divina e uma solidão abissal, abre o poema “Natural World”, do americano Jim Harrison. Publicado originalmente em 1965, o texto é um díptico brutal. De um lado, a baleia, um monumento vivo à complexidade da evolução. Do outro, a ação humana, direta e sem propósito aparente senão o gozo momentâneo. Harrison nos transporta da imensidão oceânica para as montanhas da Pensilvânia, onde “milhares sobre milhares sobre milhares” de falcões em migração foram massacrados por prazer.

O contraste é o motor do poema e da nossa reflexão. A solidão da baleia é uma condição natural, agravada pela caça predatória, mas ainda parte de um ciclo. A matança dos falcões — Merlin, Peregrino, Gerifalte, Águia-real — é um ato de pura vontade, uma interrupção deliberada. Harrison não oferece um julgamento explícito; ele apenas justapõe os fatos poéticos. A baleia, com seu peso esmagador, representa uma forma de vida que nos excede em todas as métricas físicas. Os falcões abatidos representam a facilidade com que essa vida pode ser desfeita.

A leitura aqui não é apenas ecológica, mas existencial. O poema investiga a assimetria entre a complexidade do que é criado pela natureza e a simplicidade do que é destruído pelo homem. A baleia busca um par; o caçador busca prazer. Um ato visa a continuidade da vida; o outro, sua aniquilação como esporte. A obra de Harrison, décadas depois, continua a ecoar em um mundo que normalizou a destruição como externalidade do progresso ou, pior, como forma de entretenimento.

Fica a imagem final, retirada do poema: um cérebro vasto o suficiente para abrigar um sono humano. Ao nos depararmos com a escala da natureza e a de nossa própria capacidade destrutiva, a pergunta que persiste é sobre o que sonharíamos, ou que pesadelos teríamos, se adormecêssemos em um espaço tão grandioso e tão ameaçado.

Com reportagem de Brazil Valley

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