Yayoi Kusama, uma das mais influentes artistas do último século, morreu aos 97 anos em um hospital de Tóquio. A causa, segundo um comunicado de sua galeria, a David Zwirner, foi falência múltipla de órgãos. A notícia, reportada pelo portal de design e arquitetura Dezeen, marca o fim da trajetória de uma figura que transcendeu o mundo da arte para se tornar um ícone cultural global.

Nascida em 1929, Kusama transformou suas batalhas pessoais com a saúde mental, incluindo alucinações que a acompanharam por toda a vida, no motor de sua produção artística. O que poderia ser uma jornada de isolamento tornou-se uma linguagem universal: suas bolinhas (polka dots), abóboras e, principalmente, as Salas de Espelhos Infinitos, criaram um vocabulário visual que era ao mesmo tempo profundamente pessoal e massivamente acessível.

Da Vanguarda ao Instagram

Embora tenha se tornado um fenômeno na era das redes sociais, a carreira de Kusama começou décadas antes, na cena de vanguarda de Nova York nos anos 1960. Sua obra dialogava com a de contemporâneos como Andy Warhol, mas carregava uma urgência psicológica distinta. Desde 1977, a artista vivia voluntariamente em uma instituição psiquiátrica no Japão, de onde saía diariamente para trabalhar em seu ateliê. Essa rotina não era um sinal de reclusão, mas a estrutura que sustentava sua prolífica criação.

O apelo de suas Salas Infinitas na era do Instagram é um capítulo à parte. As instalações imersivas, que buscam a “auto-obliteração” do espectador em um campo de luz e reflexos, tornaram-se o cenário perfeito para a auto-representação digital. Kusama, sem planejar, criou a obra de arte definitiva para a cultura do compartilhamento visual, garantindo que seu trabalho fosse disseminado para uma nova geração de admiradores muito além dos frequentadores de museus.

Um Legado Obsessivo e Comercial

O sucesso de Kusama também se mediu em sua penetração na cultura de consumo, notadamente através de suas colaborações com a marca de luxo Louis Vuitton. Longe de ser uma mera concessão comercial, a parceria pode ser lida como uma extensão de sua prática obsessiva, cobrindo bolsas, vitrines e roupas com seus padrões infinitos. O movimento levou sua arte das galerias para as ruas mais movimentadas do mundo, solidificando seu status como um fenômeno pop.

Em 2014, uma pesquisa baseada na frequência de museus a nomeou a artista mais popular do mundo. A popularidade não residia apenas na estética vibrante, mas na capacidade de sua obra tocar em temas universais — o infinito, o cosmos, a dissolução do ego — de forma imediata e sensorial. Ela não precisava de textos de parede para explicar sua visão; a experiência era a própria mensagem.

Kusama continuou a criar até seus últimos dias, com obras recentes como a escultura permanente “Infinite Accumulation”, inaugurada em Londres em 2024. Sua morte é o ponto final de uma vida dedicada integralmente à arte como forma de sobrevivência e expressão. Seu universo, no entanto, permanece em expansão, refletido infinitamente nos espelhos que deixou para trás e nas telas de milhões de celulares.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen