A Monterey Car Week, na Califórnia, é o palco anual para o ápice do consumo conspícuo sobre quatro rodas. É neste ambiente que a Singer Vehicle Design, a empresa que redefiniu o conceito de restauração e modificação de Porsches 911 clássicos, apresentou sua mais nova colaboração: dois modelos exclusivos com a chancela da Louis Vuitton.

Mais do que um simples exercício de branding, a parceria é um sintoma, segundo uma análise do site The Autopian. O movimento solidifica a transformação do Porsche 911 refrigerado a ar, antes um carro esporte de nicho, em um acessório de luxo. A tese é que, ao atingir o mainstream da moda, o mercado pode ter chegado ao seu ponto de saturação.

O carro como fetiche

Os dois veículos exemplificam a mudança de foco. O primeiro é um modelo Classic, com motor 4.0, pintado nas cores açafrão e amarelo da Louis Vuitton, com detalhes internos em couro especial e botões do painel banhados a ródio. O segundo, um cabriolet desenhado por Nicolas Ghesquière, diretor artístico da grife, vai além: usa madeira nos para-choques, saias laterais e na cobertura do teto. O interior é dominado pelo material, do painel aos tapetes, e o espaço dos bancos traseiros foi substituído por malas da marca.

Embora a mecânica seja impecável — o cabriolet possui um motor 3.8 biturbo —, a ênfase da comunicação está nos materiais e no design. A leitura é que estes não são carros feitos para explorar os limites da aderência, mas para serem vistos em frente ao café da moda. O Porsche 911, que já foi um ícone da engenharia alemã para puristas, completa sua transição para o que a publicação chama de "kit inicial do diretor criativo".

O movimento da Louis Vuitton pode ser o sinal mais claro de que a bolha dos 911 clássicos atingiu seu pico. Com os preços de alguns modelos já mostrando sinais de arrefecimento nos últimos meses, a entrada de uma marca de moda desse calibre pode ser o evento que marca o fim da escalada frenética. Para os entusiastas que foram precificados para fora deste mercado, uma correção pode significar um retorno à sanidade. A ironia, no meio disso tudo, é o provável sentimento na Mercedes-Maybach, que tentou repetidamente, e sem sucesso, emplacar o mesmo tipo de relevância cultural que a Singer alcançou com este único movimento.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Autopian