Enquanto Chey Tae-won, o chairman do conglomerado SK, discutia o futuro da inteligência artificial em São Francisco com nomes como Sam Altman e Jensen Huang, um tribunal em Seul reescrevia o passado de sua fortuna. A Corte Superior de Seul determinou que ele pagasse à sua ex-esposa, Roh So-yeong, a quantia de US$ 640 milhões em um dos divórcios mais caros e observados da Ásia.
O valor, embora astronômico, é uma redução significativa de uma ordem anterior de quase US$ 1 bilhão. A decisão expõe a intrincada relação entre as dinastias empresariais sul-coreanas, os chaebols, e o poder político, questionando até que ponto a influência de um ex-presidente pode ser monetizada em uma partilha de bens décadas depois.
O Nó Górdio: Capital e Política
O ponto central da disputa, e da redução do valor, foi a alegação de que fundos ilícitos do pai de Roh, o ex-presidente Roh Tae-woo, teriam impulsionado o crescimento inicial do SK Group. A Suprema Corte, no entanto, desconsiderou essa conexão como uma contribuição legalmente reconhecível, efetivamente separando a fortuna da empresa de seu suposto pecado original político. A fortuna de Chey, impulsionada pelo boom da IA que valorizou a SK Hynix, foi considerada, em grande parte, fruto de seu próprio mérito empresarial.
A decisão é um microcosmo da própria Coreia do Sul: uma nação que busca se desvencilhar de um passado onde os limites entre o estado e os grandes conglomerados eram porosos. Ao mesmo tempo, é a riqueza desses mesmos conglomerados que impulsiona o país na vanguarda tecnológica global, como visto na atual corrida pela supremacia em semicondutores e inteligência artificial.
Um Espelho Social
Apelidado pela mídia local de "divórcio do século", o caso transcende a disputa financeira. Ele reflete uma transformação social em um país ainda profundamente influenciado por valores patriarcais, onde o papel da esposa na construção de um império — mesmo que de forma indireta, através de capital político e social — é colocado sob o escrutínio judicial. A união de 1988, que selou um pacto entre o capital industrial e o poder político, se desfez publicamente em 2017 com a revelação de um relacionamento extraconjugal e um filho fora do casamento por parte de Chey.
O arco narrativo do casamento espelha as tensões entre a velha e a nova Coreia. Para a justiça, o dinheiro do pai de Roh não comprou uma fatia maior do SK Group para a herdeira. A mensagem é que, nos tribunais de hoje, o capital político de ontem tem um valor de face decrescente.
Enquanto Chey busca investimentos para o futuro da SK em solo americano, o veredito em Seul força uma pergunta sobre o passado: em uma economia construída por gigantes familiares, onde termina a contribuição de um sobrenome e começa o mérito de um indivíduo? A resposta, parece, vale centenas de milhões de dólares.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





