Um dos acervos de arte rupestre mais importantes e antigos do mundo, localizado na península de Murujuga, na Austrália Ocidental, sofreu danos maiores do que se imaginava devido a poluentes industriais. A conclusão é de um novo relatório de monitoramento, que identificou as cicatrizes deixadas por décadas de atividade industrial próxima a petróglifos com até 50 mil anos de história.

Segundo a reportagem da publicação especializada ARTnews, a pesquisa, conduzida ao longo de três anos por cientistas da Curtin University em colaboração com cinco grupos linguísticos aborígenes, estabelece uma correlação direta entre a degradação da arte e a proximidade de projetos industriais. A tese, no entanto, é mais complexa: os danos mais significativos parecem ser um legado do passado, e não um reflexo direto da atividade atual.

A cicatriz química do século XX

O principal vilão identificado pelo estudo é o dióxido de enxofre, um subproduto da queima de combustíveis com altos teores de enxofre, comuns em navios e plantas industriais nas décadas de 1970 e 1980. Essas emissões históricas alteraram a porosidade das rochas, acelerando sua degradação. Ben Mullins, cientista-chefe do projeto, destacou à ABC News que os níveis de enxofre nos combustíveis foram massivamente reduzidos desde então, sugerindo que o ritmo de deterioração pode ter diminuído.

A descoberta cria um cenário de gestão complexa. O dano está feito, um legado químico de uma era industrial com menos regulações. O desafio agora não é apenas frear a degradação, mas entender e monitorar os efeitos de longo prazo de uma contaminação que já ocorreu, enquanto a atividade industrial na região continua a se expandir.

Entre o patrimônio e a extração

O relatório surge em um momento de definições cruciais para Murujuga. Ao mesmo tempo em que a região pleiteia o status de Patrimônio Mundial da UNESCO, o governo federal australiano aprovou a extensão das operações de um grande projeto de gás, o North West Shelf, até 2070. A tensão entre preservação cultural e desenvolvimento econômico é evidente e coloca a gestão do local sob os holofotes globais.

A Murujuga Aboriginal Corporation (MAC), que representa os proprietários tradicionais da terra, defende uma abordagem que une ciência e conhecimento ancestral. A corporação negocia com o governo um acordo para financiar o monitoramento de longo prazo da área, para além de 2026. A aposta é que a vigilância constante e baseada em dados robustos é a única forma de garantir que o patrimônio sobreviva à inevitável presença da indústria.

O caso de Murujuga ilustra um dilema global: como equilibrar o legado cultural da humanidade com as demandas energéticas do presente. A solução, como indicam os guardiões locais, não parece estar em uma escolha binária, mas em um compromisso contínuo de monitoramento, responsabilidade e ciência.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews