A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) está em uma corrida para decodificar e absorver as lições da guerra na Ucrânia. Contudo, um alerta sóbrio vem de um dos pontos mais importantes de contato entre as forças ocidentais e os soldados de Kiev: nem tudo que reluz no campo de batalha ucraniano é ouro para a doutrina militar da aliança.
A advertência foi feita pelo brigadeiro norueguês Atle Molde, comandante da Operação Legio, um esforço multinacional para treinar soldados ucranianos na Polônia. Segundo reportagem do Business Insider, Molde afirma que é vital diferenciar o que a Ucrânia faz por ser genuinamente inovador e o que faz “porque não tem outra escolha”. A análise aqui é que a celebrada agilidade ucraniana, especialmente com drones, pode ser um espelho de suas carências, não um modelo a ser copiado cegamente.
A inovação da necessidade
Ao longo de mais de dois anos de conflito, a Ucrânia se tornou um laboratório a céu aberto para a guerra moderna, notadamente no emprego de veículos aéreos não tripulados. Drones de baixo custo, produzidos em massa, executam missões que vão da vigilância e logística a ataques precisos, causando, segundo algumas estimativas, a vasta maioria das baixas russas na linha de frente. O Ocidente, fascinado, observa e anota.
O ponto de Molde, no entanto, é que essa dependência dos drones mascara uma fraqueza estrutural: a ausência de poder aéreo robusto e de artilharia em volume suficiente, dois pilares da doutrina da OTAN. Para o comandante, a visão de que os drones são uma “bala de prata” é uma simplificação perigosa, alimentada por vídeos de impacto em redes sociais. Adotar essa mentalidade, segundo ele, seria um erro clássico: preparar-se para a guerra que passou, não para a que virá.
Um conflito diferente
O cerne do argumento é que um confronto hipotético entre a OTAN e a Rússia seria drasticamente diferente do cenário ucraniano. “O poder aéreo não tem um papel substancial na guerra da Ucrânia”, disse Molde. “Isso provavelmente não seria o mesmo em um conflito entre a OTAN e a Rússia. Seria completamente diferente.” A guerra atual é uma de atrito terrestre, onde nenhum dos lados estabeleceu superioridade aérea, criando o vácuo preenchido pelos drones.
Em um conflito direto, a primeira fase seria uma batalha intensa pelo controle dos céus. A geografia também importa. As planícies do leste ucraniano favorecem o tipo de combate que se vê hoje, mas a topografia variada do flanco leste da OTAN imporia desafios distintos. A leitura é que replicar a “over-reliance” ucraniana em drones, como descreveu o analista Justin Bronk do Royal United Services Institute, seria ignorar as próprias forças da aliança em prol de uma tática nascida da escassez.
O desafio para os estrategistas da OTAN, portanto, não é ignorar a experiência ucraniana, mas filtrá-la com rigor analítico. O próprio Molde afirma que seu trabalho é fazer um “cherry-picking” do que pode ser aproveitado. Trata-se de um equilíbrio delicado: absorver as inovações do campo de batalha sem comprometer uma doutrina construída para um tipo de guerra de escala e complexidade muito maiores.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider




