Em um summit em Paris convocado para discutir o futuro da indústria espacial, o presidente francês Emmanuel Macron fez um apelo por uma "Europa poderosa, independente até no espaço". A mensagem, no entanto, colidiu com uma ausência notável: a SpaceX de Elon Musk e a Blue Origin de Jeff Bezos, as duas maiores forças da nova corrida espacial privada, não compareceram. Segundo reportagem da Fortune, a ausência teria sido incentivada pela Casa Branca, um gesto que sublinha a complexa teia de competição e aliança entre Europa e Estados Unidos.

A movimentação de Macron não é retórica. Ela reflete uma crescente ansiedade estratégica no continente. A invasão da Ucrânia pela Rússia demonstrou a criticidade — e a vulnerabilidade — de depender da rede de satélites Starlink, de Musk, para comunicações militares. Relatos de que o bilionário teria negado o uso do serviço para uma ofensiva ucraniana serviram de alerta. A soberania, nesse contexto, não é apenas ter a tecnologia, mas controlar seu uso.

O dilema da dependência

A Europa busca construir suas próprias capacidades soberanas, mas o caminho é longo. O principal projeto é a constelação de satélites Iris², desenhada para rivalizar com a Starlink e garantir comunicações seguras para o bloco. O problema: sua operação plena só é esperada para 2030. Até lá, a dependência continua, e os riscos se acumulam. Outro ponto de inflexão, segundo a reportagem, ocorreu no conflito do Oriente Médio, quando empresas americanas de imagem por satélite teriam restringido o acesso a imagens da região, alimentando a demanda de nações por seus próprios "olhos no céu".

O recado é claro: em momentos de crise, os interesses estratégicos americanos, mediados por suas empresas, prevalecerão. Para a Europa, que se vê como uma infraestrutura crítica, a situação é insustentável. A questão não é apenas comercial, mas de segurança nacional. Como afirmou Josef Aschbacher, diretor-geral da Agência Espacial Europeia (ESA), "há muito em jogo".

Uma corrida de duas velocidades

O desafio europeu é estrutural. Enquanto a SpaceX transformou o mercado com foguetes reutilizáveis, reduzindo custos e permitindo mais de uma centena de lançamentos anuais, o programa europeu Ariane opera com uma logística complexa e cara. Seus foguetes são descartáveis e realizam apenas um punhado de missões por ano. Essa diferença de cadência e custo cria um abismo competitivo e um risco de "apagão de lançamentos" caso a SpaceX decida aposentar seus foguetes Falcon em favor da nova Starship.

A leitura é que a Europa não compete apenas com uma empresa, mas com um ecossistema inteiro de inovação e capital que os EUA construíram. Um pequeno sinal de mudança veio com o lançamento bem-sucedido de um foguete da startup alemã Isar, o primeiro de uma empresa comercial europeia. É um passo importante, mas a escala da dianteira americana, com a NASA, SpaceX e o projeto de satélites da Amazon, é monumental.

O summit de Macron é uma declaração de intenções, um reconhecimento de que a autonomia estratégica tem um preço. A discussão na ESA sobre desenvolver capacidade própria para levar astronautas ao espaço mostra a dimensão da ambição. A pergunta que fica não é se a Europa precisa de independência espacial, mas se ela tem o capital, a velocidade e a vontade política para comprá-la antes que o jogo esteja definitivamente jogado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune