Paraty, com sua arquitetura colonial e o burburinho da Feira Literária, parecia um refúgio da estridência de Brasília. Foi nesse cenário que a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, foi convidada a comentar um ruído que insiste em vazar para além do Planalto Central: os questionamentos sobre a lisura das urnas eletrônicas. Sua resposta, longe do juridiquês, foi um diagnóstico quase literário. Chamou a nova onda de ataques de “apenas mais um resmungo, uma arenga”.
A fala da ministra, que já presidiu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por duas vezes, projeta confiança na solidez do sistema. A leitura é que o eleitorado, em sua maioria, já “aceitou” e se apropriou da urna, tornando-a parte da paisagem cívica. O “resmungo”, no caso, tem origem clara: parte de uma articulação política que, segundo o Money Times, envolve o senador Flávio Bolsonaro e outros parlamentares, reeditando a tática de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, de semear dúvidas sobre o processo eleitoral.
Um fantasma recorrente
O roteiro da desconfiança é familiar. As alegações recentes, que tentam associar o sistema brasileiro à empresa venezuelana Smartmatic ou a supostos relatórios da CIA, são requentadas e já foram sistematicamente desmentidas pelo TSE. A Justiça Eleitoral reitera que o desenvolvimento e a operação das urnas são inteiramente nacionais, sem qualquer vínculo com a companhia citada. A repetição, contudo, não parece visar à comprovação dos fatos.
O objetivo da estratégia parece ser outro: a erosão. Ao manter o tema em circulação, mesmo que como um ruído de fundo, seus proponentes apostam no desgaste da confiança institucional. A fala de Cármen Lúcia, ao minimizar a ofensiva, pode ser interpretada de duas formas. Por um lado, como um sinal de força das instituições, que não se deixam abalar por narrativas sem fundamento. Por outro, como um risco de subestimar o poder corrosivo da dúvida persistente, especialmente em um ambiente político polarizado.
O custo da desconfiança
Para a ministra, a repercussão hoje seria menor do que a observada no ciclo de 2022. A aposta é que o argumento perdeu tração. No entanto, a insistência no tema por figuras de alcance nacional sugere que, para um determinado público, a semente da suspeita ainda encontra solo fértil. O debate não é mais sobre a tecnologia da urna, mas sobre a própria legitimidade do ato de votar e contar votos.
O Partido dos Trabalhadores (PT) reagiu judicialmente, pedindo a remoção de publicações e a aplicação de multas, tratando o caso no campo da legalidade. A fala de Lúcia, por sua vez, o desloca para o campo da relevância cultural e política. Ela sugere que o barulho existe, mas já não define a melodia. O “resmungo” escolhido pela ministra é preciso. Não é um grito, mas um murmúrio constante, um som que, mesmo baixo, pode impedir que se ouça com clareza a música da normalidade democrática. A questão que fica no ar, ecoando de Paraty, não é se o sistema é seguro, mas por quanto tempo a confiança coletiva sobrevive ao ruído.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





