No início do século XX, a ficção latino-americana promoveu um retorno para casa. Após um período de forte influência europeia, em que a prosa era povoada por referências francesas e salões suntuosos, uma nova geração de autores voltou-se para dentro, para o interior do continente. Obras como a venezuelana Doña Bárbara (1929), de Rómulo Gallegos, trocaram os bibelôs parisienses pela vastidão dos pampas, e as ninfas da mitologia clássica por vaqueiros de pele bronzeada. O protagonista, muitas vezes, era o próprio dono de terras, retornando à sua propriedade ancestral.

À primeira vista, esse movimento, conhecido como regionalismo, parece uma busca por uma identidade cultural autêntica, uma tentativa de forjar uma estética nacional a partir de materiais “da terra”. Contudo, uma análise mais profunda, como a proposta pela acadêmica Ericka Beckman em seu livro Agrarian Questions, revela uma dinâmica muito mais complexa. O argumento central é que essa virada para o mundo rural não era apenas uma escolha estética, mas uma resposta direta a uma profunda transição econômica: o declínio do modelo agroexportador, que servia a mercados estrangeiros, e a necessidade incipiente de construir um mercado doméstico. Nesse contexto, o latifúndio deixa de ser paisagem e se torna personagem — ou melhor, o problema central.

Do campo ao capital: a economia por trás da ficção

A chave para entender o romance regionalista, segundo a análise de Beckman, está na “questão agrária”. A grande propriedade rural, o latifúndio, herdada do período colonial e fortalecida após as independências, havia se tornado um entrave. Com a crise do modelo exportador, elites e intelectuais passaram a ver a estrutura fundiária como um obstáculo ao progresso: um monopólio improdutivo de terras nas mãos de uma classe ausente, que sufocava o desenvolvimento de um mercado nacional e perpetuava relações de trabalho arcaicas. O campo não era um refúgio de tradição, mas um problema econômico e social a ser resolvido.

É precisamente por isso que o romance da época é atraído para o mundo rural. A ficção se torna um laboratório para pensar soluções para o latifúndio. O enredo frequentemente gira em torno do destino da propriedade, seja por disputas de herança, planos de modernização ou conflitos com agregados. O protagonista é o latifundiário porque ele é o agente central desse drama econômico. Essa fixação no dono de terras também explica por que o regionalismo floresceu em países como Argentina, Chile e Venezuela, onde o poder da elite agrária não havia sido fundamentalmente desafiado. Em lugares como o México, a insurgência camponesa de 1910 deu origem a outro gênero, o “romance da Revolução”; nos Andes, rebeliões indígenas produziram o indigenismo.

Realismo impossível, romance inevitável

A parte mais intrigante da tese de Beckman é a forma como esses romances tentam, e falham, em resolver o problema que se propõem a narrar. Embora partam de uma realidade concreta e problemática — a ineficiência do latifúndio —, as obras não conseguem se sustentar no terreno do realismo ou do naturalismo, correntes em voga na época. Invariavelmente, a solução narrativa para os conflitos da terra desliza para o campo do “romance” (no sentido de romance, o gênero literário de aventura e fantasia), uma forma que o crítico Northrop Frye associa às classes dominantes.

Essa “desunião estética”, para usar um conceito que Roberto Schwarz aplicou à literatura brasileira, não é uma falha, mas um sintoma poderoso. A mistura de um problema real com uma solução fantasiosa revela as contradições que a sociedade não conseguia resolver. Por um lado, os romances frequentemente funcionam como uma apologia à classe dos proprietários, confirmando sua benevolência e seu direito natural à liderança. Por outro, a estrutura textual fragmentada e as soluções mágicas atestam a ansiedade e as “energias reacionárias” mobilizadas para conter qualquer possibilidade de mudança real. A ficção tenta resolver no papel um conflito que, na prática, permanecia intratável.

No fim, esses romances agrários são mais do que crônicas de uma época. São artefatos ideológicos cuja forma nos diz tanto quanto seu conteúdo. A tensão entre o desejo de retratar a realidade e a incapacidade de resolvê-la sem recorrer à fantasia expõe as fraturas de um mundo em transição. A ficção, ao tentar imaginar um futuro para o latifúndio, acabou por entregar um diagnóstico mais honesto de suas contradições do que qualquer tratado econômico.

Com reportagem de Brazil Valley

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