Marcas de calçados que por décadas foram sinônimo de conforto funcional — e frequentemente associadas a um público mais velho — estão dando um passo estratégico para além dos pés. A alemã Birkenstock, a francesa Mephisto e sua conterrânea Paraboot começam a estampar seus logos em camisetas, jaquetas e macacões, sinalizando uma nova fase de maturidade comercial.
O movimento, que inclui colaborações com grifes e varejistas de vanguarda como a japonesa BEAMS e a australiana Song For The Mute, é a consequência direta de uma mudança cultural. O que antes era o “sapato do papai” ou “do vovô” tornou-se um item de desejo. A leitura aqui não é apenas sobre vender mais produtos, mas sobre monetizar um capital de marca construído ao longo de décadas sobre pilares de durabilidade e função, agora validados pelo universo da moda.
Do conforto ao cult
A ascensão desses calçados não é um acidente. Ela se insere em uma macrotendência que valoriza autenticidade e design utilitário, que vai do “dad shoe” ao “gorpcore” (estética de montanhismo). Segundo uma reportagem da Highsnobiety, a plataforma de compras LYST registrou um aumento de 226% nas buscas pelo modelo Michael, da Paraboot, no ano passado. Este é um dado que quantifica a transição de um produto de nicho para um fenômeno cultural.
Essas marcas, algumas centenárias, passaram a maior parte de sua história focadas em um único produto bem executado. A Birkenstock tem mais de 250 anos. A Mephisto, 60. O valor que elas oferecem não está em seguir a tendência da estação, mas em representar uma alternativa a ela. O status “cult” nasce justamente dessa consistência, que agora se prova um ativo valioso o suficiente para sustentar uma expansão para o vestuário.
A marca como plataforma
As colaborações são a tática central dessa nova estratégia. A Mephisto lançou um boné e uma camiseta com a BEAMS que celebram sua tecnologia de impermeabilização “Mephi-Tex”. A Birkenstock, em sua parceria com a Song For The Mute, criou uma linha que tinha mais peças de roupa do que sandálias. Já a Paraboot se uniu à Universal Works para criar um conjunto de trabalho e à OBEY para uma camisa bordada.
O ponto em comum é que não se trata de um licenciamento superficial. As parcerias reforçam o DNA das marcas de calçados, dialogando com suas origens de funcionalidade e trabalho. O movimento sugere uma nova cartilha para marcas de herança: a autenticidade, quando cultivada por tempo suficiente, pode se tornar uma plataforma para um ecossistema de produtos muito mais amplo.
O sapato deixou de ser o fim para se tornar o meio. O teste, agora, é ver se essa expansão solidifica o status dessas empresas como marcas de lifestyle ou se corre o risco de diluir o foco que as tornou relevantes em primeiro lugar. O guarda-roupa do vovô nunca esteve tão em disputa.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Highsnobiety





