No segundo andar do Museu de Arte de São Paulo, suspensas nos icônicos cavaletes de cristal de Lina Bo Bardi, as obras parecem flutuar. Entre elas, uma captura o olhar de forma especial: “Rosa e Azul (As Meninas Cahen d'Anvers)”. A pintura de Pierre-Auguste Renoir, de 1881, é talvez a mais querida do acervo, um retrato da beleza e da rebeldia da infância encapsulada na Paris da Belle Époque.

O que a superfície cintilante da tela não revela, contudo, é a fratura exposta sob o verniz da civilização. A vida dourada das irmãs Alice e Elisabeth, filhas de uma poderosa família de banqueiros judeus, era, em certo sentido, uma ilusão. A história delas, que começa com a opulência e o mecenato artístico, deságua em uma das maiores tragédias do século XX, expondo o antissemitismo latente que nem a arte mais sublime conseguiu aplacar.

Uma Belle Époque de aparências

Na Paris do final do século XIX, os Cahen d'Anvers eram a personificação do sucesso. Cofundadores do banco Paribas, eles integravam uma elite judaica assimilada que via no patrocínio às artes um caminho para a aceitação na alta sociedade da Terceira República Francesa. Seus salões recebiam a realeza, diplomatas e escritores como Marcel Proust. Encomendar retratos a um artista avant-garde como Renoir era uma declaração de status e de pertencimento.

Contudo, como aponta a historiadora Catherine Ostler no livro The Renoir Girls, do qual o trecho original foi extraído, essa fachada de esplendor ocultava uma profunda ambivalência social. Sob a superfície de bailes, alta-costura e fé no progresso, fervilhava um ressentimento que logo encontraria um catalisador. O Caso Dreyfus, em 1894, quando um capitão judeu do exército francês foi falsamente acusado de espionagem, dividiu o país e revelou que, para muitos, a ancestralidade se sobrepunha à cidadania. A nação que os Cahen d'Anvers tanto enriqueceram já continha as sementes de sua própria traição.

Da arte à tragédia

É impossível olhar para os rostos de Alice e Elisabeth, imortalizados por Renoir em um momento de promessa e privilégio, e imaginar o que o futuro lhes reservava. A Primeira Guerra Mundial uniu a França e viu a família lutar bravamente pelo país. No entanto, o interlúdio de paz foi breve. Duas décadas depois, o regime de Vichy, colaboracionista da Alemanha nazista, ascendeu ao poder, institucionalizando um antissemitismo virulento.

A nação que a família apoiara se voltou contra eles de forma brutal. A história de “Rosa e Azul” ganha seu contorno mais sombrio aqui: Elisabeth, a menina do vestido azul, foi presa por cidadãos franceses e assassinada em Auschwitz. O destino da família, que também viu outros parentes e descendentes perseguidos e mortos, representa a falência do projeto de assimilação e a traição de um país a alguns de seus mais leais filhos.

O quadro no MASP, portanto, transcende a história da arte. Ele se torna um artefato de uma memória incômoda. A pintura que celebrava a vida e a beleza de uma era dourada hoje serve como um testemunho silencioso da fragilidade da civilização e das histórias trágicas que se escondem à vista de todos. As duas meninas, congeladas no tempo em seus vestidos de seda, nada sabiam sobre seu passado e menos ainda sobre o futuro que as aguardava.

Com reportagem de Brazil Valley

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