Brasília nasceu como uma promessa de futuro, um plano cartesiano traçado no cerrado para abrigar um Brasil que se queria moderno e integrado. Nessa utopia de concreto, a linguagem parecia seguir o mesmo roteiro: a capital federal ganhou a fama de ser uma “cidade sem sotaque”, um não-lugar fonético onde as idiossincrasias do falar nordestino, sulista, mineiro ou carioca se anulavam em nome de uma suposta neutralidade.

Um estudo recente da Universidade de Brasília (UnB), no entanto, sugere que a realidade é mais complexa e interessante. Ao analisar a fala de moradores nascidos e criados no Distrito Federal, pesquisadores encontraram não uma ausência, mas a emergência de uma identidade sonora própria. O mito da neutralidade, ao que tudo indica, escondia um processo de formação de um novo sotaque.

Uma voz para o plano piloto

A hipótese central do trabalho, coordenado pelo professor Ronaldo Lima Júnior, do Laboratório de Fonética da UnB, é que o sotaque brasiliense é um produto direto de sua história. O encontro intenso e contínuo de migrantes de todas as regiões do país teria provocado um fenômeno de nivelamento linguístico. Características muito marcantes de cada sotaque de origem foram sendo suavizadas na convivência diária, especialmente entre as novas gerações.

Esse processo não resultou em um vácuo, mas na consolidação de novos padrões. A leitura aqui é que a identidade sonora de Brasília, assim como sua arquitetura, não surgiu de forma orgânica, mas foi fabricada a partir do encontro de elementos diversos. A neutralidade percebida por ouvidos de fora seria, na verdade, o som de um sotaque novo, ainda não catalogado no imaginário brasileiro, nascido da síntese de muitos outros.

A assinatura sonora do cerrado

O que define, então, essa fala brasiliense? A pesquisa aponta para traços sutis, mas recorrentes. Um deles é a pronúncia do “S” no final das sílabas, que tende a ser sibilado, sem o chiado característico do Rio de Janeiro, por exemplo. Outra marca seria uma articulação mais suave do “R” vibrante, que se distancia de pronúncias mais fortes como a do interior de São Paulo.

Esses detalhes fonéticos são a assinatura de uma identidade em construção. A pesquisa da UnB não busca classificar um jeito de falar como “melhor” ou “pior”, mas descrever cientificamente um fenômeno cultural em andamento. O estudo captura o momento em que a cidade planejada, após décadas sendo um palco para as vozes do Brasil, finalmente desenvolve uma voz que é sua.

Brasília, a cidade que nasceu de um projeto, parece ter projetado, sem querer, seu próprio jeito de falar. A questão que fica não é se a capital tem ou não um sotaque, mas o que essa nova voz, forjada na confluência de tantas outras, revela sobre a identidade de um lugar que ainda busca definir a si mesmo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times