O número de trabalhadores qualificados estrangeiros que buscam o Reino Unido para uma carreira em tecnologia está em declínio pelo terceiro ano consecutivo, um sinal preocupante para as ambições do país. Em 2025, o total de aplicações para vistos de tecnologia caiu 7%, para 34.936, uma retração considerável frente ao pico de 53.729 registrado em 2022. Os dados, obtidos pela consultoria RSM UK, foram reportados pelo site The Register.

A tendência contraria o discurso oficial de posicionar o Reino Unido como um líder na corrida tecnológica global. Para um setor que já enfrenta uma notória escassez de mão de obra especializada, a menor atratividade para talentos estrangeiros representa um freio direto ao crescimento e à inovação, colocando em xeque a sustentabilidade do ecossistema a longo prazo.

O paradoxo da ambição britânica

A análise dos dados revela que a queda afeta o coração da indústria de tecnologia. Programadores e desenvolvedores de software representaram a maior categoria de aplicantes em 2025, com mais de 15 mil certificados, seguidos por analistas de negócios e arquitetos de sistemas, com quase 12 mil. São precisamente as funções que constroem e escalam produtos digitais.

O alerta da RSM UK é que a inteligência artificial não resolverá magicamente o déficit. Pelo contrário, a implementação segura e bem-sucedida de IA exige ainda mais profissionais qualificados. O paradoxo é claro: enquanto o governo britânico promove sua liderança em IA, sua política imigratória parece afastar os especialistas necessários para concretizar essa visão.

Um problema não isolado

O Reino Unido não está sozinho. Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos também viram uma queda de 25% nos registros para o visto H-1B, crucial para as big techs. No entanto, o caso americano foi influenciado por uma reforma para coibir fraudes e um aumento drástico nas taxas de aplicação, de US$ 10 para US$ 215.

Ainda que os contextos sejam diferentes, o pano de fundo é o mesmo: uma competição global acirrada por engenheiros, desenvolvedores e especialistas que construirão a próxima geração de tecnologia. A queda nos números britânicos sugere que, além da burocracia, o país pode estar perdendo seu apelo geral em um mercado de talentos cada vez mais disputado.

Enquanto o governo britânico fala em facilitar a vida de scale-ups e atrair os melhores engenheiros, a realidade dos números aponta para o lado oposto. A reforma do sistema de vistos, pedida por especialistas, precisaria ser ágil. No mercado global de cérebros, quem hesita não apenas para, mas corre o risco de ficar para trás.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register