Cinquenta anos após proibir voos comerciais supersônicos sobre seu território, os Estados Unidos ensaiam um passo para trás. A Administração Federal de Aviação (FAA) apresentou uma proposta de regulamentação que, na prática, pode reviver uma categoria de aeronaves que parecia relegada aos museus e à aviação militar. A nova regra abandonaria a proibição baseada em velocidade para adotar uma certificação por nível de ruído.
A mudança, que segue uma diretriz do governo Trump e ficará em consulta pública, não é uma carta branca. Ela abre caminho para que uma nova geração de jatos, mais silenciosos que o icônico Concorde, possa operar comercialmente. O movimento é uma resposta direta a avanços tecnológicos, mas reacende uma pergunta fundamental: quem está disposto a financiar uma empreitada tão complexa e cara?
Do estrondo à métrica
A proibição de 1973 não foi arbitrária. O "estrondo sônico" (sonic boom) de jatos quebrando a barreira do som era capaz de quebrar janelas e gerar pânico, um problema que ajudou a selar o destino do Concorde, forçado a voar em velocidades subsônicas sobre terra, minando seu modelo de negócio. A proposta da FAA estabelece um limite de ruído ao solo que é uma fração do produzido por um caça militar, um patamar que a indústria acredita ser alcançável.
A tecnologia para isso já está em desenvolvimento. A NASA, com seu jato experimental X-59, explora técnicas como o "corte de Mach", que projeta a onda de choque para a atmosfera, atenuando o impacto no solo. A mudança regulatória, portanto, não cria a tecnologia, mas dá a ela um mercado potencial para existir, transformando um problema físico em uma métrica de engenharia a ser solucionada.
O mercado de nicho
O retorno do supersônico, contudo, não deve começar pela aviação de massa. A análise de mercado, segundo a reportagem do Brazil Journal, aponta para os jatos executivos como a porta de entrada. Indivíduos de altíssimo patrimônio, operadores de frotas privadas e chefes de Estado formariam a clientela inicial. Startups como a Boom Supersonic, que já tem pré-encomendas da United e American Airlines, e a Spike Aerospace lideram a corrida.
Mas os gigantes estabelecidos observam atentamente. Fabricantes como a Embraer e a Dassault, com experiência em jatos militares supersônicos, e a Bombardier, com o jato subsônico mais rápido do mundo, estão posicionadas. O grande gargalo, porém, está nos motores. O seleto clube de fornecedores — GE, Pratt & Whitney, Safran e Rolls-Royce — precisa de volume para justificar os bilhões em desenvolvimento, enquanto os fabricantes de aviões buscarão acordos de exclusividade.
A porta regulatória está se abrindo, mas o caminho para um voo transatlântico de menos de quatro horas ainda é longo e íngreme. A tecnologia parece plausível, mas a equação econômica que definirá se o supersônico decola novamente ainda precisa fechar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech

