Nas colinas de Malabar, em Kerala, sul da Índia, uma casa de fazenda redefine a relação entre o sagrado e o doméstico. Projetada pelo estúdio Evolving Radical Aesthetics, a residência, batizada de Ushas, foi concebida para um casal que deixou a vida urbana para se dedicar à agricultura. Mais do que uma morada, a obra se destaca por abrigar um templo a céu aberto esculpido diretamente em seu muro de contenção.
O projeto parte de uma premissa de reverência ao lugar. Em vez de nivelar a encosta íngreme, os arquitetos usaram a topografia como guia. “O terreno se tornou nosso referencial”, afirmou Muhammed Ashiqe, arquiteto principal do estúdio, à publicação Dezeen. A decisão resultou em uma arquitetura que parece brotar da montanha, organizada em três volumes escalonados que seguem as curvas naturais do solo.
A rocha como refúgio
A materialidade é a chave para entender a filosofia do projeto. A casa é construída com granito preto de origem local, disposto em paredes espessas que, segundo os arquitetos, imitam a “construção de cavernas — uma forma muito básica e primal de abrigo”. Essa escolha não apenas ancora a estrutura na paisagem, mas também confere uma sensação de permanência e proteção, além de otimizar o conforto térmico no clima quente e úmido de Kerala.
Em contraponto à solidez da base de pedra, o telhado é uma estrutura leve de aço e telhas tradicionais de Mangalore, que se projeta para além das paredes. Esses beirais generosos criam varandas que protegem os ambientes das fortes chuvas de monção e diluem a fronteira entre o interior e o exterior. A casa não se impõe à colina; ela dialoga com ela, usando a própria matéria do lugar como principal elemento de expressão.
Espiritualidade em balanço
O elemento mais singular de Ushas é, sem dúvida, o seu espaço espiritual. Em vez de um anexo ou uma sala dedicada, o templo é uma cavidade a céu aberto, esculpida no próprio muro de arrimo de granito. Logo acima, a sala de estar se projeta em balanço, criando uma cobertura que abriga o espaço de meditação. A arquitetura aqui não apenas contém a espiritualidade, mas a enquadra contra a vastidão das montanhas.
Segundo os arquitetos, o desenho remete aos templos em cavernas, oferecendo um lugar de solitude. Um pódio de pedra convida à dança ou à contemplação, transformando o ato de habitar em um ritual contínuo. A espiritualidade não é um apêndice da vida doméstica; ela é sua fundação literal e figurativa, um espaço escavado na mesma rocha que sustenta a casa.
O projeto se completa com o paisagismo, que segue as curvas de nível do terreno com canteiros e caminhos. Os próprios moradores continuam o trabalho, plantando árvores nativas e hortaliças, permitindo que a casa e a terra evoluam juntas. A linha entre o construído e o natural é intencionalmente borrada, formando um organismo único em constante diálogo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





