Há cerca de um ano, Lúcia Zaragoza, uma executiva do Google em São Paulo, decidiu trocar a arquibancada pela quadra. Fã de longa data do esporte, a ponto de viajar para acompanhar o Australian Open, ela se viu buscando uma atividade física e encontrou no tênis uma nova paixão. Hoje, na academia que frequenta, ela nota uma presença majoritariamente feminina, um microcosmo de uma transformação mais ampla que está redefinindo o esporte no Brasil.

Este movimento, que une esporte, moda e um senso de comunidade, vai muito além de nomes como Bia Haddad ou João Fonseca. Trata-se de uma mudança estrutural na base de praticantes e consumidores. O gatilho, segundo executivos do setor, não foi um ídolo específico, mas a pandemia, que posicionou o tênis como um esporte seguro pelo distanciamento social. A partir daí, uma onda de novas adeptas, muitas delas vindas do beach tennis em busca de maior complexidade técnica, começou a tomar as quadras, e com elas, todo um ecossistema de negócios se reconfigurou.

Do sofá para a quadra

Os números confirmam a percepção. Na rede de academias PlayTennis, a participação feminina saltou de 19% para 32% da base de clientes nos últimos três anos, um crescimento que ajudou a triplicar o faturamento da empresa desde 2020. A Confederação Brasileira de Tênis, por sua vez, aponta um aumento de 33% no interesse feminino pelo esporte desde o início da década. Esse fenômeno não se restringe à prática amadora; ele reverbera nas arquibancadas dos torneios profissionais.

No Rio Open, o principal torneio da América do Sul, a presença de mulheres no público cresceu de 30% para 45% nos últimos anos. O sucesso levou à criação do SP Open, um evento da WTA focado no circuito feminino, onde a audiência já nasce equilibrada. Para Marcia Casz, diretora de ambos os eventos, há uma clara identificação das mulheres que querem assistir a outras mulheres competindo, criando um ciclo virtuoso que alimenta tanto a base de fãs quanto a de futuras atletas.

O jogo dos negócios

Essa nova demografia tem um impacto direto e profundo nos negócios. Marcas de vestuário esportivo estão pivotando suas estratégias para atender a uma consumidora que se comporta de maneira diferente do público masculino. Na Slyce, uma marca com apenas dois anos de mercado, a linha feminina explodiu de 20% para 50% do faturamento. O motivo, segundo o fundador Jorge Castello Branco, é que a mulher tende a comprar o look completo, a estética e o estilo de vida, enquanto o homem foca mais no atleta e na performance. Como resultado, o tíquete médio feminino é superior e 95% das parcerias com influenciadores da marca agora são com mulheres.

Grandes players seguiram o mesmo caminho. Na Fila Brasil, o portfólio feminino cresceu 28% no último ano, com a marca ganhando participação de mercado impulsionada por essa alavanca. A estratégia agora é explorar a convergência entre performance, moda e bem-estar, transformando saias, vestidos e conjuntos esportivos em peças de um guarda-roupa casual. A Amazon Brasil corrobora a tendência, registrando um aumento de 45% no tíquete médio da categoria de tênis no último ano, com consumidores migrando para equipamentos mais profissionais.

O que se desenha é a transformação de um esporte historicamente percebido como de elite em um fenômeno de lifestyle com forte apelo feminino. A questão que fica no ar não é se o crescimento é real, mas quão duradoura é essa nova fundação. O tênis brasileiro, ao que tudo indica, encontrou em sua nova base de praticantes e consumidoras a força para um novo set point, um que se joga tanto na quadra quanto fora dela.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea