Em museus e bibliotecas francesas, espalhado como memória fragmentada, repousa o “tesouro de Ségou”. São quase 500 manuscritos, joias, armas e artefatos que pertenceram a Omar Saïdou Tall, um líder militar, místico e fundador do Império Toucouleur no século 19. Para o Senegal, ele é um herói anticolonial. Para a França, seu acervo tem sido, desde 1890, um troféu de guerra, pilhado por tropas do general Louis Archinard.

Agora, uma nova lei francesa, sancionada em maio, propõe um acerto de contas com essa história. A legislação cria um caminho formal para a restituição de bens culturais saqueados, dando esperança aos descendentes de Tall, que há décadas lutam pelo retorno de seu patrimônio. “É a minha missão”, declarou Thierno Madani Tall, seu descendente direto, ao jornal Le Monde. A lei, para ele, é o reconhecimento de que a França “roubou esses objetos de grande valor”.

Da exceção à regra

Até hoje, a diplomacia da restituição operou no campo dos gestos simbólicos, não da política sistêmica. Em 2019, a França devolveu a espada de Tall, parte do tesouro. Em 1995, repatriou os restos mortais de seu neto, sequestrado aos 10 anos durante o mesmo ataque de 1890 e levado à França, onde morreu jovem. Cada devolução foi fruto de anos de negociações complexas e leis específicas, tratando os casos como exceções.

A nova legislação representa uma mudança de paradigma. Ela é a materialização de uma promessa feita pelo presidente Emmanuel Macron em 2017 de devolver o patrimônio africano ao continente. A lei estabelece um “framework” — uma estrutura legal permanente — para analisar pedidos de restituição de itens saqueados entre 1815 e 1972, período que cobre o segundo império colonial francês. A abordagem deixa de ser casuística para se tornar processual.

O caminho de volta

O processo, no entanto, não é automático. Cabe ao Senegal, após finalizar um inventário completo do acervo, formalizar o pedido. A solicitação será então analisada por comitês com especialistas de ambos os países. É um desenho que busca equilibrar a reparação histórica com o rigor técnico e a soberania dos Estados, evitando que a decisão seja puramente política.

Enquanto o processo diplomático se desenrola, curadores franceses trabalham na digitalização dos manuscritos de Ségou, visando disponibilizá-los para pesquisa global. A iniciativa é pragmática, mas embute uma tensão filosófica: a cópia digital pode preservar a informação, mas apenas o retorno do objeto físico pode restaurar a integridade da memória. Para um povo, a diferença entre ver uma imagem e tocar a própria história é a distância que separa o arquivo da alma.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews