O Ministério dos Transportes da Espanha confirmou que a plataforma de um trecho de 65 quilômetros da linha de alta velocidade entre Múrcia e Lorca está “praticamente finalizada”. A notícia, um avanço técnico em um projeto massivo, serve principalmente para iluminar um paradoxo logístico: hoje, para viajar os 200 quilômetros entre Múrcia e Almería de trem, a única opção é um trajeto de mais de 10 horas que passa por Madri. De carro, a viagem leva duas horas.
Este pequeno passo, reportado pelo site espanhol Xataka, é parte da saga do Corredor Mediterrâneo, uma obra de infraestrutura que deveria ser a espinha dorsal da economia do leste espanhol, conectando portos, centros industriais e turísticos desde a fronteira com a França até o sul do país.
Uma espinha dorsal em construção
O Corredor é mais do que uma conveniência para passageiros; é uma artéria econômica. A costa mediterrânea espanhola concentra um volume significativo de mercadorias, indústrias e turismo que hoje dependem de uma malha ferroviária obsoleta e de um modelo radial, historicamente centrado em Madri. O projeto é considerado prioritário pela União Europeia desde 2011, mas seu progresso tem sido glacial. Em 2018, sete anos após o impulso europeu, apenas 40% da obra estava sequer planejada, segundo supervisores do projeto. O avanço atual depende fortemente dos fundos de recuperação europeus, os Next Generation, que financiaram licitações de € 8 bilhões desde 2018.
A engenharia contra a inércia
O trecho entre Múrcia e Almería é o retrato da inércia. Chamado de “buraco ferroviário”, sua ausência no mapa força uma volta de centenas de quilômetros pelo centro do país. Fechar essa lacuna exige uma engenharia complexa, incluindo 12 viadutos — um deles com 2,1 quilômetros de extensão —, túneis e um soterramento de 6,6 quilômetros para a saída dos trens da cidade de Múrcia. O custo e a complexidade técnica explicam em parte a lentidão, mas também sublinham o preço de décadas de subinvestimento em uma infraestrutura que não acompanhou a evolução econômica da região.
Cada avanço no Corredor Mediterrâneo é uma vitória contra o anacronismo. O projeto é um caso de estudo sobre a dificuldade de alinhar a visão estratégica de longo prazo com a execução burocrática e política. Enquanto a linha não se completa, a economia da região segue fazendo um desvio desnecessário, assim como seus trens.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





