A conta dos desastres climáticos na Europa está chegando antes e mais cara do que o previsto. Incêndios florestais e ondas de calor já custaram mais de €3,1 bilhões apenas nos cinco países mais afetados — França, Espanha, Portugal, Grécia e Romênia — nos dois primeiros meses da temporada de incêndios. O valor, apurado em uma análise do Financial Times, já supera a estimativa média anual de €2,5 bilhões que a Comissão Europeia projetava para todo o bloco.

O número, por si só, é um alerta. Mas a leitura mais profunda é que esses eventos deixaram de ser choques pontuais para se tornarem um fator estrutural de risco. A onda de calor, que tornou junho o mês mais quente já registrado no continente, não apenas alimenta incêndios, mas expõe a fragilidade de cadeias de suprimentos, da infraestrutura energética e dos modelos de seguro que sustentam a economia europeia.

O seguro acabou?

As seguradoras são as primeiras a recalcular a rota. Gigantes como a Munich Re já não tratam o calor extremo como um evento atípico, mas como uma tendência de longo prazo. Segundo reportagem da Bloomberg, a indústria se prepara para uma nova era de risco de catástrofes, onde os dados históricos não servem mais para precificar o futuro.

A resposta do mercado financeiro começa a tomar forma com instrumentos como os "títulos de catástrofe" (ou cat bonds), que transferem parte do risco das seguradoras para os mercados de capitais. O desafio, contudo, é a modelagem. Sem dados históricos confiáveis, a capacidade de criar cenários prospectivos de risco se torna o ativo mais valioso para atrair investidores e garantir a resiliência do sistema.

Do rio ao reator, o efeito dominó

O impacto econômico vai muito além das áreas queimadas e dos custos de reflorestamento. A seca e o calor extremo provocam um efeito em cascata. A queda nos níveis de água de rios vitais como o Reno e o Danúbio afeta o transporte de mercadorias, encarecendo a logística e forçando cortes na produção de gigantes químicas alemãs como a BASF.

Na frente energética, a situação é igualmente crítica. A baixa vazão dos rios ameaça a operação de usinas nucleares na Hungria e na Romênia, que dependem da água para resfriamento. Na França, incêndios na região de Gironda, um polo aeroespacial e de defesa, forçaram empresas como Safran e Dassault Aviation a paralisar a produção. O custo real, portanto, não está apenas na restauração, mas na interrupção da atividade econômica.

A cifra de €3 bilhões é apenas a ponta do iceberg, representando o custo direto de recuperação das áreas atingidas. As perdas indiretas no PIB, decorrentes da interrupção de negócios e da desorganização das cadeias produtivas, podem ser múltiplas vezes maiores. A questão que se impõe à Europa — e que serve de alerta para outras geografias — não é mais apenas como combater os incêndios, mas como redesenhar a infraestrutura econômica para um planeta mais quente e volátil.

Com reportagem de Brazil Valley

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