O Microsoft Office representa um dos monopólios mais duradouros e silenciosos da tecnologia. Há mais de 30 anos, indivíduos e corporações acumulam um volume planetário de documentos, planilhas e apresentações que dependem do ecossistema da Microsoft para funcionar sem atritos. A existência de um padrão de documento aberto, o OOXML, desde 2008, pouco fez para alterar esse cenário de aprisionamento de dados, conhecido como lock-in.

Este quadro contrasta fortemente com a vitória do software livre e de código aberto (FOSS) sobre o domínio do Internet Explorer no fim dos anos 90. Segundo uma análise do portal britânico The Register, a falha em replicar esse sucesso contra o Office se deve a uma estratégia equivocada. A tese é que, para quebrar as barreiras, a comunidade FOSS precisa mudar o foco: de construir alternativas para validar a compatibilidade delas de forma rigorosa.

A Guerra Vencida e a Batalha Perdida

No auge de seu poder, a Microsoft tentou controlar a internet da mesma forma que dominava o desktop. O plano era claro: ao embutir o Internet Explorer no Windows e promover tecnologias web exclusivas, a empresa criaria um jardim murado online. A estratégia foi derrotada por um ecossistema aberto. Protocolos livres, servidores como o Apache e, principalmente, motores de renderização de navegadores de código aberto se mostraram mais ágeis e inovadores, culminando na rendição simbólica da própria Microsoft ao adotar a base do Chrome em seu navegador Edge.

Com o Office, a história foi outra. Embora a Microsoft tenha sido pressionada a padronizar seu formato de arquivo no OOXML, a implementação prática frustrou a interoperabilidade. Conforme aponta a The Document Foundation, mantenedora do LibreOffice, a Microsoft adota por padrão uma versão “transicional” do padrão, e não sua variante “Strict”. O resultado é que, na prática, a compatibilidade de documentos gerados em softwares de terceiros nunca é perfeita, o que torna seu uso inviável em ambientes corporativos que dependem de fidelidade absoluta dos arquivos.

Testar, Não Apenas Construir

O problema, portanto, não é a ausência de alternativas ao Office. Existem dezenas de suítes de produtividade e componentes de software livre capazes de ler e escrever arquivos OOXML. A questão é que nenhum deles consegue fazer isso com a confiabilidade necessária para garantir que um documento complexo seja renderizado de forma idêntica dentro e fora do ecossistema Microsoft. Para um cliente corporativo, essa incerteza é suficiente para invalidar qualquer migração.

A solução, argumenta a análise, não é criar mais um motor de renderização. O que o ecossistema precisa é de um conjunto de testes (test suite) de conformidade, aberto e continuamente atualizado. Essa ferramenta seria capaz de validar qualquer software em relação ao resultado que os produtos da Microsoft efetivamente produzem no mundo real, incluindo dependências proprietárias como fontes. O objetivo não é a perfeição, mas ser “bom o suficiente” para que uma massa crítica de usuários possa finalmente confiar nas alternativas.

A batalha contra o monopólio do Office é mais complexa que a da web, pois as defesas são mais sutis e entrincheiradas. Ainda assim, a aposta é que os mesmos princípios de colaboração aberta e desenvolvimento ágil que venceram a primeira guerra contra o navegador podem, agora, forjar a chave para destravar a segunda. A questão não é se é possível, mas se a comunidade se organizará para o desafio.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register