O som é o de um sussurro industrial, uma cadência rítmica que ecoa em um estande durante a turnê global da On em Londres. Diante de uma plateia atenta, um braço robótico descreve arcos precisos no ar, lançando sobre uma sola estática o que parece ser uma teia de aranha sintética. Em menos de três minutos, o que era apenas um bloco de espuma de borracha ganha forma, estrutura e propósito. Não há teares, não há costuras, nem o desperdício inerente aos cortes de tecido que definiram a indústria calçadista por décadas. A marca suíça On, conhecida por suas inovações na corrida, parece ter encontrado uma nova gramática para a produção de calçados, batizada de LightSpray.
A ruptura da manufatura tradicional
Ao observar o robô em operação, a sensação é de que estamos diante de uma escultura em tempo real. O processo utiliza quase uma milha de filamento, depositado camada por camada diretamente sobre a entressola. Nils Altrogge, diretor de inovação, tecnologia e pesquisa da empresa, descreveu o método como algo que desafia a própria linguagem industrial. O cabedal não é tricotado, não é tecido, não é moldado da forma convencional. A tecnologia de pulverização cria uma estrutura têxtil que, segundo a empresa, não possui um termo técnico adequado no léxico da moda atual. É, em essência, a aplicação da filosofia de impressão 3D em um ambiente de alta velocidade e escala comercial.
A escala da automação
Esta demonstração pública em Londres não é apenas uma curiosidade de feira; é uma vitrine para um sistema que já opera de forma silenciosa e eficiente na Coreia do Sul. Atualmente, 32 robôs replicam esse mesmo movimento coreografado para produzir o modelo Cloudmonster 3 Hyper. A transição da prototipagem experimental para a linha de montagem automatizada sugere uma mudança profunda na gestão da cadeia de suprimentos. Se a fabricação pode ser reduzida a um processo de três minutos em um ambiente controlado, a geografia da produção de calçados pode ser, teoricamente, redesenhada para ser mais próxima do consumidor final, reduzindo drasticamente a logística global.
O futuro da personalização
As implicações para a indústria de bens de consumo são vastas e ainda pouco exploradas. A capacidade de fabricar um calçado sob demanda, ajustando a densidade ou o padrão do filamento pulverizado através de software, abre portas para uma personalização que vai além da estética. Reguladores e competidores certamente observarão de perto se essa eficiência energética e de materiais se traduzirá em uma vantagem competitiva sustentável ou se permanecerá um nicho de luxo tecnológico. A On, ao apostar nessa tecnologia, desloca o foco do design de produto para o design de processo, onde a máquina, e não apenas o estilista, dita a forma final do objeto.
O que resta na memória
O que permanece, contudo, é a imagem desse braço robótico que, com uma elegância quase orgânica, constrói um tênis do nada. Resta saber se o conforto e a durabilidade desse novo material serão aceitos pelo mercado de corredores de alta performance, que historicamente resistem a mudanças radicais em seus equipamentos. A tecnologia de pulverização, por ora, serve como um lembrete de que o futuro do varejo pode ser menos sobre o que compramos nas prateleiras e mais sobre como o objeto é gerado diante dos nossos olhos. Será que, em breve, veremos máquinas de spray ocupando as vitrines de lojas ao redor do mundo?
Com reportagem de Dezeen
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