O nome de Neave Brown evoca uma era de ambição brutalista na habitação social britânica, um esforço monumental para reconstruir o pós-guerra com concreto, escala e uma visão de comunidade que nem sempre se concretizou. Hoje, o prêmio que leva seu nome, concedido pelo Royal Institute of British Architects (RIBA), revela uma abordagem radicalmente diferente. Os quatro finalistas para 2026 não buscam a utopia em megaestruturas, mas a dignidade em uma escala humana, conectada ao tecido urbano existente e à natureza.
Os projetos selecionados, três em Londres e um em Glasgow, compartilham uma filosofia: a moradia acessível não precisa ser esteticamente pobre ou socialmente isolada. Pelo contrário. Em Rowan Court, o escritório Satish Jassal Architects expande um conjunto habitacional dos anos 1970, adicionando 46 residências de aluguel social que dialogam com o entorno sem subserviência. Em Canada Water, Morris+Company organiza 79 lares ao redor de um pátio central, uma tipologia clássica que fomenta a vizinhança. A premissa, como destacou a presidente do júri, Helen Lee, é a criação de “lugares belos e duradouros para se viver”.
A arquitetura como ferramenta social
Cada finalista responde a um desafio urbano específico com elegância. O projeto Lion Green Road, em Croydon, distribui 157 moradias em cinco edifícios de tijolos, maximizando o acesso a uma área verde adjacente. A paisagem não é um adorno, mas parte integral da proposta de moradia. Em Glasgow, o St Andrew’s Drive substitui um bloco obsoleto dos anos 1960 por 120 novas unidades, incluindo apartamentos e casas geminadas que compartilham um espaço verde comum. É a antítese do modelo de torre isolada em um descampado.
O que une essas iniciativas é a recusa da padronização desalmada. Utilizam materiais como tijolo e madeira, pensam na incidência de luz natural e criam espaços que incentivam o encontro. São projetos que entendem que a qualidade de uma casa vai além de seu metro quadrado; ela reside na sua relação com a rua, com os vizinhos e com a cidade. Trata-se de uma arquitetura que serve não apenas como abrigo, mas como infraestrutura para a construção de comunidade.
O desafio da escala
Contudo, a excelência desses projetos lança uma sombra de dúvida. Com um total de pouco mais de 300 unidades entre os três projetos londrinos, eles são uma gota d'água na metrópole que enfrenta uma das mais graves crises habitacionais do mundo. São faróis de possibilidade, mas sua luz ainda alcança poucos. A questão que paira é a da escalabilidade. Um design tão cuidadoso e contextual é replicável em massa, sob a imensa pressão por custos e velocidade que define o setor?
Esses projetos demonstram que, quando há vontade política e talento arquitetônico, o resultado pode ser extraordinário. Eles provam que a equação entre custo, qualidade e beleza não é um jogo de soma zero. O prêmio Neave Brown não celebra apenas quatro edifícios, mas uma ideia: a de que uma moradia digna é um direito que deve ser expresso não só na lei, mas também nos tijolos, nas janelas e nos espaços compartilhados que definem um lar.
A questão fundamental que os finalistas de 2026 nos deixam não é se é possível construir habitação social de alta qualidade. Eles provam que sim. A pergunta mais difícil, e mais urgente, é por que isso ainda é uma celebrada exceção, e não a norma.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen Architecture





