A Orange anunciou a assinatura de um memorando de entendimento com um consórcio de sete operadoras para a construção do Via Africa, um novo cabo submarino de fibra óptica projetado para conectar a Europa Ocidental e do Sul à África do Sul. A iniciativa surge em um momento de vulnerabilidade crítica para as comunicações internacionais, onde a dependência de rotas antigas e a concentração de infraestrutura em pontos geográficos específicos têm gerado riscos sistêmicos para a estabilidade da rede global.

O projeto, que ainda se encontra em estágio inicial de planejamento, visa criar uma rota alternativa que contorne o Atlântico, integrando pontos de conexão no Reino Unido, França, Portugal e Ilhas Canárias aos nós africanos em Mauritânia, Senegal, Guiné, Costa do Marfim e Nigéria. A leitura do consórcio é que a infraestrutura atual, composta por sistemas instalados há mais de uma década, não possui capacidade para suportar a crescente demanda por serviços de nuvem, inteligência artificial e teletrabalho, tornando a modernização um imperativo estratégico para as operadoras envolvidas.

O gargalo da infraestrutura submarina

A dependência de cabos submarinos é um fato pouco visível, mas central para a economia moderna. Mais de 95% do tráfego internacional de internet transita pelo leito oceânico, tornando qualquer falha física um evento de alto impacto. O caso ocorrido em março de 2024, quando quatro cabos foram danificados simultaneamente na costa africana devido a um deslizamento de rochas, ilustra a fragilidade do sistema. A interrupção deixou 13 países da África Ocidental com conectividade reduzida por semanas, afetando não apenas o consumo local, mas também serviços em nuvem e operações financeiras que dependem de fluxos constantes com a Europa.

Vale notar que o envelhecimento dos sistemas legados, como o SAT-3/WASC e o WACS, limita a escalabilidade necessária para o tráfego atual. Embora novos investimentos como o 2Africa, da Meta, e o Medusa, no Mediterrâneo, estejam em curso, o Via Africa propõe uma diversificação de rota que busca isolar a rede de pontos únicos de falha. A estratégia da Orange, que gerencia mais de 450.000 quilômetros de cabos, reflete uma necessidade de controle sobre a resiliência da infraestrutura básica que sustenta sua própria operação comercial.

A dinâmica dos hiperescaladores

O mercado de infraestrutura submarina vive uma transformação impulsionada pela entrada de grandes empresas de tecnologia. O Google, com o cabo Equiano, e a Meta, com o 2Africa, mudaram a dinâmica de investimento, que antes era dominada exclusivamente por consórcios de operadoras de telecomunicações. Ao construir sua própria infraestrutura, esses hiperescaladores garantem latência reduzida e capacidade dedicada para seus ecossistemas de serviços, desafiando o modelo tradicional de aluguel de capacidade que sustentava as operadoras de telefonia.

Para o consórcio do Via Africa, a concorrência não é apenas técnica, mas econômica. A viabilidade do projeto dependerá da capacidade de oferecer uma rota que seja, ao mesmo tempo, comercialmente atraente para operadoras menores e robusta o suficiente para atrair tráfego de grandes empresas que já possuem alternativas próprias. O sucesso da empreitada exigirá um equilíbrio entre custos de instalação, manutenção de longo prazo e a garantia de que a rota escolhida seja menos suscetível aos riscos geológicos que afetaram cabos anteriores.

Implicações para o ecossistema global

A conectividade entre Europa e África é um dos pilares da digitalização do continente africano, onde a demanda por largura de banda cresce em ritmo acelerado. Para reguladores e governos, a diversificação das rotas submarinas é uma questão de soberania digital, garantindo que o acesso a serviços globais não seja interrompido por falhas em uma única região. Paralelamente, o impacto para empresas europeias é direto, já que a perda de capacidade de tráfego afeta a entrega de serviços cloud e a continuidade de negócios transcontinentais.

O movimento da Orange sugere que a infraestrutura de rede está sendo repensada sob a ótica da resiliência, e não apenas da capacidade bruta. O desafio para os próximos anos será integrar esses novos cabos em um sistema que seja interoperável e capaz de suportar as exigências de latência da próxima geração de aplicações baseadas em IA, que demandam uma infraestrutura cada vez mais distribuída e robusta.

Incertezas no horizonte

O projeto ainda enfrenta incertezas consideráveis, visto que o memorando de entendimento não constitui um contrato de construção final. Questões como o traçado definitivo, a definição dos fabricantes, o custo total da obra e o cronograma de implementação permanecem em aberto. A história recente de grandes projetos de infraestrutura submarina mostra que anos podem transcorrer entre o anúncio e o início efetivo das operações, e mudanças no cenário macroeconômico podem impactar a viabilidade de consórcios do tipo.

O mercado observará atentamente se o consórcio conseguirá converter o memorando em uma estrutura de financiamento sólida e em um plano de execução claro. A capacidade de navegar pelas complexidades técnicas e geopolíticas de cada país onde os cabos farão o pouso será o próximo teste para a viabilidade do Via Africa no competitivo mercado de infraestrutura global.

O desenvolvimento do Via Africa representa uma aposta na longevidade das comunicações submarinas, mas a eficácia dessa estratégia dependerá da capacidade do grupo em mitigar os riscos técnicos e enfrentar a concorrência dos hiperescaladores. O futuro da conectividade entre os dois continentes caminha para uma rede mais redundante; porém, a concretização desses planos exige, antes de tudo, um longo percurso de viabilização técnica e financeira.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka