Apenas 53% dos adultos americanos afirmam sentir um orgulho "extremo" ou "muito" elevado por sua nacionalidade, segundo dados da Gallup. Este índice representa a leitura mais baixa desde o início da série histórica em 2001, refletindo um declínio prolongado no sentimento patriótico que atravessa a última década de instabilidade política e social nos Estados Unidos.
O cenário é corroborado por um levantamento do centro AP-NORC, que aponta quedas significativas no orgulho dos cidadãos em relação a pilares fundamentais, como o funcionamento da democracia, a influência do país no cenário global e o papel das Forças Armadas. A desilusão parece ser um fenômeno transversal, embora as motivações variem drasticamente conforme o espectro político e a faixa etária dos entrevistados.
A erosão dos pilares democráticos
A percepção sobre a qualidade da democracia americana sofreu um golpe severo, com uma queda de 14 pontos percentuais desde 2017, atingindo apenas 28% de aprovação atual. O declínio é acompanhado por um distanciamento em relação à história do país e ao papel das Forças Armadas, que perderam 19 pontos percentuais em termos de orgulho nacional no mesmo período.
Esse movimento não ocorre no vácuo. A análise dos dados sugere que a insatisfação é alimentada por um ciclo de polarização extrema, onde a identidade nacional passou a ser mediada pela filiação partidária. Enquanto setores conservadores mantêm laços mais fortes com símbolos tradicionais, parcelas expressivas do eleitorado democrata demonstram um desencanto crescente com as trajetórias institucionais do país.
O papel da identidade partidária
A disparidade entre os grupos é notável: enquanto 70% dos republicanos declaram orgulho extremo, apenas 14% dos democratas compartilham do mesmo sentimento. Essa divisão não se limita à política interna; ela se estende à forma como cada grupo interpreta o papel dos Estados Unidos no mundo, incluindo intervenções militares e a influência exercida em zonas de conflito global.
Para muitos, o patriotismo tornou-se uma variável dependente da gestão governamental. O período que compreende o primeiro mandato de Donald Trump, a pandemia de COVID-19 e a inflação recente sob a administração Biden criou um ambiente onde a própria definição de "ser americano" é contestada. O resultado é uma fragmentação onde a identidade nacional deixa de ser um ponto de convergência para se tornar mais um vetor de disputa.
Conexões geracionais e sociais
O fator geracional adiciona uma camada de complexidade ao quadro. A importância da identidade nacional para o indivíduo é significativamente menor entre os jovens abaixo de 30 anos, em comparação com os cidadãos acima de 60. Esse distanciamento sugere que as novas gerações podem estar construindo suas referências de pertencimento a partir de outras esferas, como a identidade racial, étnica ou por meio de causas globais que transcendem as fronteiras nacionais.
Para o ecossistema político, essa mudança de paradigma representa um desafio de governabilidade. Quando a base de sustentação emocional de um país se torna tão heterogênea e, por vezes, antagônica, a capacidade de forjar um consenso sobre políticas públicas torna-se ainda mais limitada, perpetuando o ciclo de paralisia que muitos eleitores, independentemente da ideologia, apontam como o maior problema atual.
O futuro da coesão nacional
Permanece em aberto a questão sobre se esse declínio no orgulho é um movimento cíclico, comum em períodos de alta tensão, ou uma mudança estrutural e permanente na psique americana. A persistência de um núcleo que ainda considera a identidade nacional fundamental para sua vida pessoal indica que o patriotismo não desapareceu, mas foi reconfigurado.
Os próximos anos dirão se o país conseguirá reverter essa tendência ou se a desilusão com o sistema democrático continuará a erodir a base do contrato social. O foco recai agora sobre como as lideranças políticas responderão a esse vácuo de identidade, em um momento em que a polarização parece ser a única linguagem comum entre os lados opostos.
A desilusão detectada pelas pesquisas reflete não apenas o cansaço com a política, mas uma reavaliação crítica sobre o que significa pertencer a uma nação que, apesar de sua longa história, enfrenta dificuldades para definir um propósito coletivo compartilhado por toda a sua população.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





