A expansão das marcas hoteleiras no segmento de cruzeiros de ultraluxo tem sido uma tendência marcante. No entanto, a Orient Express Sailing Yachts adota uma estratégia deliberadamente distinta, buscando um espaço intermediário que transcende as definições tradicionais de linha de cruzeiros ou frota de superiates. O objetivo é oferecer uma experiência que capture o melhor dos dois mundos, posicionando o seu primeiro navio, o Corinthian, como um marco nessa nova era da hospitalidade marítima.
Philippe Brault, diretor-geral da Orient Express Sailing Yachts, enfatiza que a percepção do cliente é o fator determinante. "Nos consideraremos um iate quando os clientes nos considerarem um iate", afirma, desconsiderando o debate setorial sobre rótulos em favor da experiência do hóspede. Essa filosofia permeia todos os aspectos do projeto, desde o design inovador de um porto esportivo retrátil até as suítes espaçosas e o foco na navegação a vela e na "viagem lenta". A intenção é borrar as fronteiras entre a privacidade da navegação em iates e o serviço de alta hotelaria em alto mar. O Corinthian, após sua temporada inaugural no Caribe, representa a ambiciosa expansão da icônica marca Orient Express, que já abrange trens e hotéis de luxo.
Um Legado Familiar e uma Visão Inovadora
A trajetória de Philippe Brault no setor marítimo, com mais de quatro décadas de experiência, é marcada por uma profunda conexão familiar com a navegação. Sua linhagem, com antepassados armadores na Dinamarca e na França, e a atuação do pai e do filho na indústria, moldaram sua carreira. Brault passou grande parte de sua vida profissional na marinha mercante, gerenciando navios de carga e contratos de construção naval. Posteriormente, liderou a aquisição e gestão de uma empresa do setor, onde atuou por 35 anos. Em 2016, buscou um novo rumo, fundando uma consultoria focada em fusões e aquisições no mercado marítimo.
A oportunidade de se juntar à Orient Express Sailing Yachts surgiu através de sua rede de contatos. Ao saber que a Marriott investia em cruzeiros de luxo com o Ritz-Carlton e que a Accor acabara de adquirir a marca Orient Express, Brault apresentou a Sébastien Bazin, CEO da Accor e seu colega de escola, a ideia de expandir a marca para o setor de iates. A proposta era criar uma sinergia entre trens, hotéis e barcos, oferecendo itinerários de "viagem lenta". Bazin abraçou a visão, e Brault foi fundamental para auxiliar a Accor a compreender o mercado, desde o financiamento e construção naval até a gestão de projetos marítimos, aproveitando a experiência prévia de sua empresa em intermediação de iates.
Da Ideia à Realidade: O Nascimento do Corinthian
O ímpeto para tirar o projeto do papel se intensificou após a pandemia de COVID-19, período em que o mercado de viagens de luxo experimentou um boom, com a demanda reprimida por experiências exclusivas. A conversa com Bazin foi retomada, em um contexto onde outras redes hoteleiras de renome, como Aman e Four Seasons, também sinalizavam interesse no segmento de cruzeiros de luxo. A Orient Express Sailing Yachts encontrou no estaleiro Chantiers de l’Atlantique um design de iate à vela pré-existente, o que permitiu acelerar o processo em pelo menos um ano. A colaboração com o estaleiro, mesmo diante da alta demanda por vagas, viabilizou a agilidade necessária para concretizar o projeto.
A escolha pela navegação à vela, em vez de um iate a motor, foi motivada tanto pela busca por sustentabilidade quanto pela disponibilidade do design. Ao adaptar um conceito já consolidado, a empresa economizou tempo de desenvolvimento. Modificações significativas foram realizadas, como a remoção de um convés, o alongamento do casco em 20 metros e a redesenho do porto esportivo, transformando-o em um espaço mais alinhado com a estética e funcionalidade de um iate. A construção do Corinthian foi notavelmente rápida: em dezembro de 2022, a intenção de construir dois navios já era firme; em maio de 2023, o contrato estava assinado, com o corte de aço ocorrendo em 2024. Montado em Saint-Nazaire em apenas cinco meses, o navio foi lançado em janeiro de 2025, com testes em mar e entrega dentro do prazo e do orçamento.
Um Posicionamento Único no Mercado
A principal diferenciação da Orient Express Sailing Yachts em relação a outras marcas de cruzeiros de luxo reside nas velas e na escala da operação, buscando uma experiência mais íntima e exclusiva. Com apenas 54 suítes, o Corinthian se aproxima mais do espírito de marcas como Aman do que de gigantes como o Ritz-Carlton (243 suítes) ou o Four Seasons (95 suítes). O foco na "viagem lenta" e a integração de espaços, materiais nobres e amplas janelas nas suítes criam uma atmosfera que remete mais a um iate do que a um navio de cruzeiro tradicional. A experiência de vida ao ar livre e, em particular, o porto esportivo retrátil, que permite aos hóspedes nadar diretamente do barco e utilizar equipamentos aquáticos, são elementos-chave que redefinem a interação com o mar.
Em relação à rigorosa definição de "iate de vela" no setor náutico, Brault adota uma postura humilde, deixando a classificação para a percepção dos hóspedes. "Seremos um iate quando os clientes nos considerarem como tal", reitera. A capacidade de oferecer uma área de banho que se expande para o mar, com acesso direto a brinquedos aquáticos, é vista como um diferencial crucial. A proposta de aluguel exclusivo e reservas para grupos também é um pilar do modelo de negócios, com cinco reservas completas já garantidas antes mesmo da apresentação pública do navio. A capacidade de acomodar 124 hóspedes mantendo a experiência de iate torna o mercado de fretamento exclusivo uma vertente significativa.
Horizontes de Luxo Interconectados
A visão de longo prazo da Orient Express Sailing Yachts é a integração completa de hotéis, trens e embarcações em uma experiência de viagem fluida e coesa. A ideia é permitir que os viajantes transitem entre diferentes modais de luxo sem interrupções, como iniciar uma jornada em Paris, pernoitar no icônico trem Orient Express rumo a Istambul e, em seguida, embarcar em um cruzeiro. Ou ainda, para casais americanos, combinar uma semana em uma villa privada com uma escapada marítima pela Itália antes do retorno. Essa abordagem holística visa consolidar a marca como sinônimo de viagens de luxo em múltiplos formatos, redefinindo o conceito de explorar o mundo com elegância e conveniência.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





