Em jogos de futebol americano escolar de grande rivalidade no Texas, onde antes circulavam cerca de 15 jornalistas de veículos locais, hoje se acotovelam até 80 fotógrafos e videomakers. A maioria não pertence a redações tradicionais. São criadores de conteúdo independentes, contratados por atletas e suas famílias para produzir material para redes sociais, um fenômeno que administradores escolares apelidaram de “paparazzi de pijama”.

Segundo uma reportagem do site Front Office Sports, a explosão desses criadores autônomos representa uma nova e complexa dor de cabeça operacional. Impulsionado pela popularização de oportunidades de monetização de nome e imagem (conhecidas como NIL nos EUA) e pela acessibilidade de equipamentos de filmagem, o movimento transforma as laterais dos campos em um ambiente caótico e, por vezes, inseguro, forçando uma reavaliação sobre quem, de fato, pode ser considerado “mídia”.

A Economia do Criador na Grama Sintética

O que alimenta essa corrida ao campo é uma confluência de fatores. Do lado da demanda, a profissionalização precoce de atletas juvenis e a importância das redes sociais para o recrutamento universitário criaram um apetite insaciável por conteúdo. Pais e jogadores passaram a ver a produção de fotos e vídeos de alta qualidade não como um luxo, mas como uma ferramenta essencial para construir uma marca pessoal e atrair olheiros e patrocinadores. Como resumiu um diretor atlético de Ohio, “todo mundo tem uma empresa de mídia agora”.

Do lado da oferta, o custo de câmeras e softwares de edição despencou, enquanto a carreira de criador de conteúdo se tornou uma aspiração legítima para uma geração que cresceu online. Muitos desses novos fotógrafos são recém-saídos do ensino médio, com laços de amizade com os atletas em campo. Eles operam como freelancers, fechando acordos informais para registrar os melhores momentos dos jogadores. O resultado é um ecossistema onde a linha entre fã, amigo e profissional de mídia se tornou extremamente tênue.

Entre a Oportunidade e o Caos

Para jornalistas e equipes técnicas, a superlotação é um problema prático. Profissionais relatam que os novatos frequentemente desconhecem a etiqueta básica do campo: montam tripés que representam risco de tropeço, usam iluminação inadequada e se posicionam em locais perigosos por não entenderem a dinâmica do jogo. A situação, segundo uma fotojornalista do Arizona, está começando a parecer “um Super Bowl em um jogo de temporada regular”.

A questão, contudo, vai além da inconveniência. A presença de dezenas de adultos não credenciados por veículos estabelecidos ao redor de menores de idade levanta sérias preocupações de segurança. Enquanto um jornalista tradicional é, em tese, vetado por sua empresa, um criador independente não passa pelo mesmo crivo. Em resposta, algumas associações estaduais começam a agir. Arizona e Carolina do Norte, por exemplo, passaram a exigir checagem de antecedentes para todos que solicitam credenciais. Uma escola na Geórgia instituiu uma taxa de até US$ 25 para credenciar criadores não afiliados a um veículo, uma barreira mais simbólica do que financeira para filtrar o acesso. Não há, por enquanto, um manual de boas práticas, apenas uma série de experimentos para tentar organizar o inevitável.

Enquanto escolas e distritos buscam um equilíbrio, fica claro que a demanda por conteúdo não irá diminuir. O desafio é acomodar essa nova realidade sem sacrificar a segurança e a ordem essenciais ao esporte amador. A questão que permanece é como diferenciar os criadores legítimos dos oportunistas, em um jogo onde todos querem um lugar na primeira fila.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Front Office Sports