A OTAN tem, nos últimos anos, intensificado o reforço de suas capacidades militares e o deslocamento de tropas e armamentos para as proximidades das fronteiras russas. No entanto, uma falha histórica na infraestrutura logística pode comprometer a eficácia dessas operações antes mesmo de um eventual conflito: a dependência de uma rede de oleodutos construída durante a Guerra Fria, cujas instalações, em grande parte, permanecem ancoradas no mapa da época.

A Infraestrutura Obsoleta da Guerra Fria

Durante o auge da Guerra Fria, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) erigiu um extenso sistema subterrâneo de oleodutos com o objetivo de garantir o abastecimento de combustível para suas forças em um cenário de confronto direto com a União Soviética. Essa vasta rede, que atravessa 12 países e conecta bases militares, portos e refinarias, ainda está operacional e possui capacidade para armazenar 4,1 milhões de metros cúbicos de combustível. O componente central, o Sistema Centro-Europeu de Oleodutos (CEPS), abrange países como França, Bélgica, Luxemburgo, Países Baixos e Alemanha. Embora em tempos de paz parte da infraestrutura seja utilizada para abastecer grandes aeroportos civis, como os de Frankfurt e Amsterdã-Schiphol, as necessidades militares teriam prioridade absoluta em caso de guerra.

Deslocamento Estratégico Sem Infraestrutura Correspondente

Com o fim da União Soviética, a OTAN expandiu suas fronteiras para a Europa Oriental, incorporando nações como a Polônia, os Estados Bálticos e, mais recentemente, a Finlândia. Contudo, sua principal infraestrutura de distribuição de combustível não acompanhou esse realinhamento estratégico, permanecendo majoritariamente concentrada na Europa Ocidental. Ao longo de décadas, os aliados optaram por reduzir suas capacidades logísticas permanentes, priorizando sistemas móveis para operações expedicionárias. A contradição é clara: a OTAN fortaleceu sua presença militar em regiões mais próximas da Rússia, mas ainda carece de uma rede de abastecimento dedicada e equivalente para essas novas frentes.

O Gargalo Logístico em um Conflito de Alta Intensidade

O problema não reside na ausência de suprimentos para os exércitos orientais em tempos normais, mas nas quantidades extraordinárias que um conflito de alta intensidade demandaria. Um estudo do Centro de Estudos Orientais da Polônia aponta que a aviação pode ser responsável por até 85% do consumo militar de combustível, enquanto uma única brigada blindada em operações poderia necessitar de mais de 300.000 litros diários. O deslocamento massivo de tropas americanas e europeias para o front poderia sobrecarregar a capacidade logística existente, mesmo antes do início das hostilidades. O transporte de tais volumes por meio de caminhões-tanque e ferrovias saturaria rotas essenciais para o movimento de soldados, veículos e munições.

Custos e Prazos da Modernização

O tenente-general Kai Rohrschneider, responsável pelo comando logístico da OTAN, já alertou que o transporte de grandes volumes de combustível representa um dos maiores desafios de abastecimento da Aliança. Entre as prioridades está a extensão da rede para a Polônia e o desenvolvimento de soluções para os países bálticos, Finlândia e Romênia. A Polônia já assinou um acordo preliminar para a construção de cerca de 300 quilômetros de oleodutos, conectando-se ao sistema existente, um investimento estimado em US$ 5,5 bilhões. Um projeto de expansão mais amplo para a Europa Oriental foi avaliado em cerca de € 21 bilhões pelo centro polonês OSW, com uma estimativa de execução entre 20 e 25 anos. A construção de novos oleodutos, contudo, não é a única solução; a OTAN também necessita de depósitos protegidos, instalações móveis e rotas alternativas para garantir o suprimento contínuo, mesmo em caso de danos à infraestrutura.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka