A rua 7 da Favela das Almas, em 2006, pulsa com uma energia sombria que transcende o sobrenatural. Não são os monstros de cera, com sorrisos tortos e olhares vazios, que realmente apavoram em "Otherside Tapes: Favela". É o cenário, meticulosamente construído pela Pulsatrix Studios, que se torna o verdadeiro protagonista e antagonista. Em cinco horas explorando cada viela estreita, cada fiação exposta, cada placa de comércio feita à mão, o que se revela é um terror psicológico intrinsecamente brasileiro, que assombra mais pela sua verossimilhança do que pelas ameaças fantasmagóricas.
O jogo nos coloca na pele de Cláudio da Silva, um criador de conteúdo de lendas urbanas que decide investigar os mistérios da misteriosa Rua 7. A estética found footage, com sua imagem granulada e a câmera na mão de Cláudio, intensifica a sensação de imersão. A recriação da favela carioca é um triunfo artístico. Cada detalhe, do filtro de barro à disposição das casas, evoca uma realidade palpável, quase tangível. A dublagem em português, com Cláudio soando como um youtuber da virada do milênio, e os gráficos bem trabalhados, contribuem para uma atmosfera densa e envolvente, onde o som ambiente – gemidos vindos de dentro das casas, o ruído distante da vida cotidiana – se mistura à tensão crescente.
O Pavor da Realidade
A força motriz de "Otherside Tapes: Favela" reside na sua capacidade de evocar o desconforto através da familiaridade. A ambientação não é apenas um pano de fundo; é uma personagem ativa. As casas apertadas, a escuridão que se adensa nas vielas, a visão fugaz de uma figura parada em uma janela – tudo isso contribui para um medo visceral que se enraíza antes mesmo que as manifestações sobrenaturais se apresentem. O jogador se sente verdadeiramente dentro daquele espaço, com suas limitações e sua opressão inerente. A Pulsatrix Studios demonstra um domínio impressionante na arte de criar cenários que dialogam com a experiência humana, transformando a arquitetura e a organização de uma comunidade real em um palco para o terror.
Mecanismos e Limitações
O level design, com suas camadas de realidade interconectadas por relógios de pêndulo, oferece uma navegação fluida e puzzles de dificuldade mediana que, embora funcionais, poderiam ter sido mais explorados. A persistência das ações entre as diferentes realidades – uma porta aberta em um plano permanece aberta nos outros – é um mecanismo inteligente que incentiva a exploração e o backtracking. No entanto, a narrativa, contada predominantemente através de documentos encontrados pelo caminho, carece de profundidade e clareza. O contexto do "poste", o principal antagonista, e a origem do universo sobrenatural permanecem obscuros, deixando o jogador com mais perguntas do que respostas. A falta de uma crítica social mais incisiva sobre as realidades da vida em favela, mesmo dentro de um contexto fantástico, é uma oportunidade perdida.
A Insegurança dos Monstros
Enquanto a ambientação se consolida como o ponto alto, os monstros e suas mecânicas de perseguição falham em manter o susto ao longo das poucas horas de jogo. Inicialmente, os inimigos, com sua aparência perturbadora e comportamento estático que evolui para perseguição quando não observados, criam momentos de tensão genuína. Contudo, a repetição dos padrões e a escassez de bateria para a câmera – que oferece visão noturna e um flash para atordoar os inimigos – tornam o confronto previsível. Em espaços confinados, as criaturas demonstram comportamentos erráticos, por vezes bugando e surgindo inesperadamente, o que, em vez de aumentar o terror, gera frustração. A mecânica de defesa se mostra insuficiente para sustentar o medo a longo prazo.
Um Espelho Distorcido
"Otherside Tapes: Favela" se propõe a ser uma experiência de terror que explora um cenário brasileiro pouco usual, e nesse quesito, ele acerta ao criar uma atmosfera imersiva e assustadora. A recriação da favela é notável, e a dublagem em português eleva a qualidade da imersão. Contudo, a narrativa superficial e a repetição nas mecânicas de combate aos monstros impedem que o jogo atinja seu potencial máximo. O valor de R$ 33,99 e a curta duração (cerca de 2 horas, ou 5 com exploração detalhada) podem ser um fator para alguns jogadores. Para quem busca um terror com forte identidade brasileira e valoriza a ambientação, a experiência pode valer a pena, especialmente com a promessa de finais alternativos. Mas para aqueles que esperam uma história profunda ou inimigos que realmente desafiem a sanidade até o fim, "Otherside Tapes: Favela" pode deixar um gosto de "quero mais", um reflexo talvez intencional da própria favela que ele tão bem retrata: um lugar de beleza, complexidade e mistérios ainda por desvendar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Olhar Digital





