O ar de Ourense carrega consigo um vapor sutil, um convite silencioso a mergulhar em águas que contam histórias de dois milênios. Não se trata de um luxo moderno, mas de uma herança viva, que brota a mais de 60 graus Celsius em pleno coração da cidade. As termas, conhecidas como As Burgas, são o pulso de Ourense, um legado que remonta aos tempos romanos, quando as ninfas das águas já eram cultuadas e os banhos eram parte intrínseca da vida social e religiosa. A descoberta de pedras votivas dedicadas a divindades indígenas e vestígios de um santuário atestam essa conexão ancestral, onde a água não era apenas um recurso, mas um elemento sagrado que atraía e fixava os povos.
Ao caminhar pelas ruas de Ourense, é impossível ignorar a presença constante dessas águas. Elas não estão confinadas a spas luxuosos ou resorts distantes; elas emergem em fontes públicas, aquecem banhos históricos e se espalham pelo rio Miño, criando um mosaico de piscinas ao ar livre que convidam ao relaxamento. A cidade soube adaptar essa dádiva natural às necessidades contemporâneas, mantendo a essência lúdica e terapêutica que encantou os romanos. A experiência de se banhar em águas termais, com a paisagem galega ao redor, oferece um refúgio do cotidiano, um momento de reconexão consigo mesmo e com a natureza.
Essa relação simbiótica entre a cidade e suas águas termais se manifesta de diversas formas. Além do apelo turístico, que atrai visitantes em busca de bem-estar e experiências autênticas, as termas moldam a própria identidade ourensana. Elas inspiram lendas, como a do vulcão adormecido sob o Montealegre, e se tornam parte do folclore local, citadas em coplas populares. A infraestrutura turística em torno das termas, com piscinas públicas e privadas, zonas de acesso controlado e preços que buscam democratizar o acesso, reflete um esforço contínuo para preservar e capitalizar esse patrimônio único.
No entanto, a gestão desse recurso natural apresenta seus desafios. A sazonalidade, a necessidade de manutenção e a gestão de visitantes são questões que demandam atenção constante. A proximidade com o rio Miño, por exemplo, pode tornar algumas áreas inacessíveis em certas épocas do ano devido a inundações. A recente aprovação de uma nova ordenança para a piscina de As Burgas, com preços de entrada e modalidades de desconto, sinaliza a busca por um modelo sustentável que equilibre a preservação do patrimônio com a viabilidade econômica e o acesso público. A reabertura dessa piscina, aguardada com expectativa, promete reacender o debate sobre o valor e o acesso a esses tesouros naturais.
Ao final do dia, enquanto o vapor das termas se eleva em direção ao céu galego, fica a reflexão sobre a resiliência e a generosidade da natureza. Ourense nos ensina que o verdadeiro luxo pode estar na simplicidade de um banho quente, em águas que curam e conectam, um legado que, se bem cuidado, continuará a aquecer corpos e almas por muitas gerações. A cidade, com suas águas abrasadoras, é um convite perene à contemplação e ao bem-estar, um testemunho de que o passado pode, de fato, aquecer o presente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka




