O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) vive um impasse sobre o cronograma de publicação de seus relatórios mais importantes, cruciais para a avaliação das metas climáticas globais. Pesquisadores apontam que um grupo de países produtores de petróleo e emergentes, incluindo China, Rússia e Arábia Saudita, estaria tentando atrasar o trabalho do principal órgão científico das Nações Unidas. A reunião em Adis Abeba, Etiópia, para definir o cronograma e o orçamento dos relatórios terminou sem decisão, adiando a aprovação prevista para setembro de 2028, a tempo da COP33 e da segunda edição do Global Stocktake do Acordo de Paris.

Pressão política na ciência climática

O IPCC, que reúne centenas de pesquisadores para analisar estudos sobre mudanças climáticas e publicar relatórios sobre causas, vulnerabilidades e mitigação, tem visto suas reuniões marcadas por debates acalorados. Tradicionalmente, a definição do cronograma era um processo rápido. Agora, um grupo de oito países, incluindo China, Índia, Arábia Saudita, Irã e Rússia, propõe adiar a entrega dos relatórios para 2029. A justificativa apresentada é a necessidade de mais tempo para incluir a contribuição de países em desenvolvimento, cujos pesquisadores enfrentam dificuldades para publicar e participar do trabalho não remunerado do painel. Contudo, muitos países em desenvolvimento, como as nações insulares ameaçadas pelo aumento do nível do mar, clamam por urgência na publicação. A High Ambition Coalition, com mais de 30 países, enviou uma carta cobrando o cronograma original, alertando que "separar o ciclo de políticas da ONU das evidências científicas fornecidas pelo IPCC comprometeria o esforço global para enfrentar a crise climática e enfraqueceria a cooperação internacional".

O mecanismo do Global Stocktake em risco

Os relatórios do IPCC são a base científica para o Global Stocktake, um mecanismo do Acordo de Paris que avalia o progresso coletivo em direção à meta de limitar o aquecimento global a 1,5ºC. A publicação desses documentos até 2028 é fundamental para subsidiar as discussões na COP33, a conferência que sediará a avaliação. Atrasar a entrega dos relatórios significa comprometer a qualidade e a tempestividade da análise científica que deve guiar as políticas climáticas futuras. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) já admitiu que a meta de 1,5ºC não é mais cientificamente plausível, mas destacou a necessidade de medidas urgentes. A presença de grandes produtores de petróleo, como Arábia Saudita e Rússia, entre os países que buscam o adiamento, levanta suspeitas sobre motivações políticas. O Brasil, ao lado de mais de 40 países, posicionou-se a favor da divulgação até 2028.

Desigualdade instrumentalizada e inclusão no IPCC

Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, reconhece que modelos científicos podem ter vieses do Norte Global, mas defende que isso deve ser resolvido durante a formulação do relatório, não por adiamento. Ele considera "extremamente preocupante que a questão da desigualdade estrutural esteja sendo instrumentalizada por alguns grandes países em desenvolvimento". O IPCC, por sua vez, tem buscado maior inclusão: mais da metade dos autores principais e editores do ciclo atual são de países em desenvolvimento, e os próximos relatórios incluirão capítulos sobre financiamento climático e danos irreversíveis. O presidente do painel, Jim Skea, enfatizou a importância do consenso no cronograma para "fornecer evidências científicas confiáveis para orientar as políticas climáticas nacionais".

Perguntas em aberto e o futuro da ciência climática

Uma nova reunião será convocada para resolver o impasse, mas sem data definida. A necessidade de aprovação de alguns documentos, como o sumário executivo, por países-membros, adiciona complexidade ao processo. A China, que avalia sediar a COP33, minimizou a necessidade de o Global Stocktake de 2028 se basear nos relatórios científicos. O futuro da base científica para a ação climática global permanece incerto, dependendo da capacidade de superar as pressões políticas e garantir a integridade e a tempestividade da ciência. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Capital Reset